Carreira

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Pensar o profissional de TI+C

publicado por Anderson Ortiz

Tenho lido com muita atenção e curiosidade o embate travado aqui e em outros fóruns ligados à área sobre a necessidade e premência da regulamentação da carreira profissional em TI, criando um espaço institucional para os profissionais, resguardando assim uma fatia de mercado e recompensando o esforço daqueles que se profissionalizaram. A reivindicação me parece válida e os argumentos consistentes. Também sou a favor da regulamentação da profissão.

Para contribuir na defesa da regulamentação, contudo, gostaria de levar a discussão sob um novo foco, fazendo o papel do ‘advogado do diabo’, com a esperança de contribuir para organizar as ideias e convicções sobre a área…

Em artigo recente, mencionei que temos presenciado um acelerado movimento de convergência dos setores de TI e Telecom sob a bandeira de uma nova área, a de Tecnologia da Informação e Comunicações (TIC). Esta área, a exemplo de muitas outras, é fruto da convergência de diversos segmentos, técnicos e não-técnicos, que ainda se acotovelam para demarcar espaço neste campo transformado do conhecimento.

Exploro neste texto o conceito de ‘híbrido’ defendido pelo antropólogo Bruno Latour para continuar falando da formação deste campo, a exemplo do que ocorreu com várias carreiras desde a potencialização da modernidade no século XVIII. A ‘modernidade’ aqui referida trata-se do movimento europeu iniciado no século XV, que culminou na crescente emancipação do indivíduo nos séculos seguintes a partir do uso da razão e de uma nova consciência histórica para temas como ciência, religião, sociedade, Estado, economia, progresso, trabalho, cidadania, entre outros. Este movimento da modernidade é confirmado com a revolução francesa em seus ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade.

No lugar da religião, a ciência. Sai o Estado Absoluto, coloca-se a sociedade de forma contraditória ao poder. Ao invés do súdito, o cidadão com direitos iguais a partir de um contrato social cuja principal promessa é a emancipação do indivíduo. No lugar da comunidade agrária, o início das grandes e populosas cidades pré-industriais. Um contexto afinal de significativas mudanças de mentalidade histórica.

Foi a modernidade e o dogma na capacidade ilimitada da ciência que nos trouxe até aqui com o mundo do trabalho. O fazer científico conheceu um crescimento sem precedentes graças à especialização dos diferentes campos do saber. Como Latour explica, de um lado foram separadas as ciências da natureza (física, química, biologia, astrologia, entre tantas outras que desvendavam padrões e leis de funcionamento empírico do mundo, exceto o homem); em outro canto, colocaram-se as ciências humanas (que tratavam de lidar com todos os fenômenos individuais e sociais, exceto aqueles de origem ‘natural’); em outros dois pólos distintos ainda foram separados os assuntos ligados à metafísica (religiões e crenças) e à linguagem (semiótica, linguística).

Na defesa de Latour, estas separações tiveram como mérito propiciar um acúmulo de conhecimento entre redes de produção de saber. Quanto mais especializado um profissional e mais adaptado ao modo de produzir ciência dentro de um campo, melhor o resultado e a difusão destes achados dentro do grupo. A produção entre pares na rede formada por interesses específicos facilita o processo de comunicação das descobertas, aliado aos crescentes avanços nos suportes de armazenamento (pergaminhos, livros, bibliotecas, acervos até mais recentemente discos rígidos, servidores etc.).

É neste contexto de produção de saber e armazenamento da memória que se fundam as especializações profissionais no ocidente. Podemos dizer que as profissões são um corte arbitrário que a ciência propôs como forma de acelerar as descobertas, armazená-las e replicá-las no futuro. Segundo Latour, embora bem-sucedida no seu projeto, a fase atual nos revela que esta prática criou uma série de ‘híbridos’. O híbrido é o resultado do trabalho de ‘purificação’ da produção científica. Purificação que se define como o ato de isolar o objeto da pesquisa de toda e qualquer relação com o contexto que o circunda, separando para cada grande área científica somente aquilo que interessa estudar do objeto, colocando de lado todas as outras dimensões envolvidas. Por exemplo, ao produzir um novo equipamento mecânico, raramente terei na engenharia um pensamento sobre os impactos desta inovação na sociedade. Caberia aos cientistas sociais pensarem nisso. Da mesma forma como cabe aos filósofos religiosos refletirem sobre o que muda no dogma religioso a partir do que a ciência desmistifica empiricamente.

Ora, esta separação, ainda que muito conveniente para encerrar o pensamento científico, produz resultados no mundo real que não podem ser isolados. Assim, o conceito de híbrido em cada campo da ciência se revela como um ato de jogar luz sobre certo aspecto ao mesmo tempo em que produz sombra em diversos outros. Natureza, sociedade, religião, linguagem e muitos outros são elementos interligados, inseparáveis. Cada vez que o fiel da balança pende para um lado, todos os outros aspectos também são afetados com maior ou menor intensidade. Pensemos em temas como economia e meio ambiente; pesquisa genética e religião; tecnologia e desemprego; urbanização e violência; enfim, há um sem número de híbridos que se multiplicam a cada inovação que desenvolvemos em cada campo da ciência que leva a novas forma de organização social e intervenção no espaço natural…

Desnecessário dizer que, no irromper de um novo milênio, o próprio campo científico vem se dando conta de que aquilo que era um mérito (a produção de discurso encerrada no seio de grupos fechados), não é mais suficiente para resolver os problemas que temos pela frente, em especial pela visão atual da escala global que eles representam. É possível que uma nação sozinha resolva o problema da poluição? Devemos ou não permitir a clonagem humana? Que tal automatizarmos todas as indústrias com robôs? O que fazer para evitar o aumento da criminalidade de uma grande cidade? Vê-se que temos problemas em uma nova escala cujas respostas são impossíveis de serem dadas partindo de um único campo de saber…

Mas afinal, o que tudo isto tem a ver com a questão do profissional de TI? Primeiro, parece-me que ao falar de profissional de TI, estamos produzindo um novo híbrido. Porque ao jogar luz na área de TI, estamos no mínimo lançando sombra na área de Comunicações. É por isso que proponho logo no título pensar a área de TI+C.

Num pensamento superficial, poderíamos então simplesmente incorporar o “C” e o problema está resolvido. Pronto, TIC e não se fala mais nisso. Mas mesmo este “C” de Comunicações nos produz um híbrido que espraia o fazer para campos que vão além das Telecomunicações. Repare que o termo “Comunicações” sabiamente foi colocado no lugar de “Telecom”. Não temos uma área “TIT”. Temos um campo chamado TIC se formando…

É porque com “Comunicações” não estamos pensando somente aquilo que tecnicamente compõe as redes telemáticas, mas aquilo que também gera resultados culturalmente. O ponto aqui é: a área em muito pouco tempo será formada não somente por engenheiros de telecom/redes e analistas de TI, mas também por profissionais de outras áreas, tais como Comunicação Social, Educação, Administração, Psicologia, Antropologia, Sociologia entre tantas outras profissões que dependerão de entender a área de TIC para continuar produzindo. A lógica que vemos ser inaugurada de livre acesso à informação e compartilhamento de conhecimento está além do campo técnico. A pirâmide de TIC apresenta uma nova força que atravessa a cadeia do topo para a base. É o usuário com suas inovações e novas formas de empregar os objetos técnicos que está demandando a readequação dos softwares, hardwares e ativos da rede. Receio que a escolha para os cargos de liderança neste setor continuará a não descartar  a visão e a experiência de profissionais de outras áreas, privilegiando por assim dizer o profissional de TI ‘puro-sangue’ em processos de seleção…

Lembro que um dos maiores valores que temos no contexto atual é o acesso à informação. E as áreas de TI e Telecom têm papel fundamental neste cenário, tanto através das pesquisas institucionais dos laboratórios de informática pioneiros na segunda metade do século XX (criação dos protocolos, expansão das redes), passando pelas pesquisas em telecomunicações (novas tecnologias, conexões seguras por todo o globo, via cabo ou sem fio), quanto dos próprios indivíduos aficcionados colocados de maneira contra-hegemônica pela defesa da liberdade de expressão e acesso à boa informação (hackativismo). Esta área cresceu de forma emergente justamente pelo prazer de suas comunidades em produzir de forma aberta e sem restrições, sentindo que fazia algo de útil, com autonomia e da forma mais conveniente possível para cada participante.

Mas estes valores agora se espraiam para outros campos. Será que a ‘purificação’ da carreira de TI, esquecendo o “C” e seus diversos integrantes nesta cadeia é uma resposta para fazer este campo crescer? No limite, o que fica dentro e o que fica fora de TI quando se regulamentar a profissão? E se, por força do destino, o que ficar de fora do campo purificado de TI se tornar mais desafiante e recompensador do que aquilo que foi contemplado na lei? Será possível produzir em TI desconsiderando-se o que as carreiras ligadas à cultura e à gestão podem trazer para esta área?

Uma regulamentação no setor de TI deveria contemplar seriamente o mundo em que vivemos hoje, que se transforma em todas as áreas do saber, mesmo aquelas tradicionalmente estabelecidas.

Bem, uma parte destas respostas são encontradas olhando para o próprio mercado. Cada pequena decisão aqui e acolá, quando olhadas numa perspectiva maior, nos dá um quadro bem interessante sobre o que já é a área de TIC. Mas isso já é tema para outro papo.

Sucesso a todos!

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Autor

Diretor de Marketing e Negócios na ISDN Infraestrutura e Talentos em TIC, já tendo atuado em empresas nacionais e internacionais nas áreas de turismo e lazer, representação empresarial, navegação e operação portuária, saúde, química, educação e esporte. Comunicador Social, dedica-se atualmente ao mestrado em Novas Tecnologias da Comunicação pela Universidade do Estado do RJ. Especialista em Pesquisa de Mercado e Opinião pela mesma instituição, participou também de formações gerenciais na França e especialização em Marketing e Gestão de Serviços (ESPM-RJ). Atua também como professor da FACHA, lecionando na cadeira “Opinião Pública e Pesquisa de Audiência”. Entre suas produções, destaca-se o artigo “Relações Públicas na criação de ambientes de negócios”, no livro “Com credibilidade não se brinca”, lançado pela editora Summus.

Anderson Ortiz

Comentários

3 Comments

  • Anderson
    Excelente abordagem. Para ser analisada sem proselitismo.
    Ouso algumas contribuições.
    1. o título TI-C já é uma tendência mundial consolidada ICT. Lutar contra é dar murro em ponta de faca.
    2. a ênfase divisional é uma característica aristotélica-cartesiana superada exatamente pela teoria geral dos sistemas que foca conjunto e finalidades. Não divisões.
    3. o Brasil foi pioneiro na visão integrada dos métodos de TI-C na implantação do projeto SACI Satélite Avançado de Comunicação Interdisciplinar do INPE que gerou nosso sistema espacial, de telecomunicações e TV educativa, entre outros.
    Infelizmente temos memória curta.
    E preferimos jogar fora nossas conquistas para importar enlatados.
    Excelente artigo.

  • Oi Ivan, obrigado pelo comentário. Se vc tiver conteúdo sobre o SACI, adoraria ter acesso.

    Sucesso sempre!

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