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A distorcida visão sobre a área de Tecnologia da Informação

publicado por Alexandre Pupo

A distorcida visão sobre a área de Tecnologia da InformaçãoRecentemente, participei de um debate originado por mais um artigo sobre a falta de mão de obra qualificada na área de Tecnologia da Informação (TI) e as opiniões dos participantes motivaram a elaboração desse texto.

Um dos participantes fez um comentário interessante conceitualmente, porém falho quando olhado de uma maneira clínica, sobre as razões que levam a área de TI a ser vista como é e, consequentemente, ser tratada da forma como vemos atualmente.

Na opinião do participante em questão, a TI precisa evoluir porque a área e os profissionais ainda não entenderam que devem atuar de forma alinhada ao negócio das empresas e esse mesmo participante também acha absurdo alguém de TI sugerir uma formação posterior em Tecnologia da Informação para profissionais de outras áreas.

A minha discordância com essa forma de ver TI ocorre pelo fato de a área ter evoluído muito nos últimos anos e porque a tão criticada falta de alinhamento ao negócio e de integração com outros departamentos é gerada por deficiências não apenas em TI, mas também nas demais áreas das.

Atualmente, ainda existe uma quantidade absurda de empresas cujos processos operacionais e de negócio não funcionam – justificando o surgimento e a popularização dos inúmeros frameworks para as mais diversas áreas dentro das corporações – e a resolução desse tipo de questão não é algo a ser encabeçado pela área de TI. Achar que a TI deve resolver problemas dessa natureza usando tecnologia é, ironicamente, colocar a área em um pedestal que muitos dizem ser o lugar onde os profissionais do setor vivem e do qual devem descer.

Todo profissional de TI com alguma experiência sabe que se processos problemáticos não funcionam sem tecnologia, eles continuarão não funcionando ao serem absorvidos por soluções tecnológicas e essa é uma questão ainda não compreendida pela maioria das empresas e por quase todos os profissionais do mercado, inclusive de TI. Se algo com problemas estruturais ou de concepção é automatizado com primor, as únicas coisas obtidas serão erros primorosamente cometidos e com muito mais velocidade.

Ver, erroneamente, a TI e os respectivos profissionais como uma panaceia é uma das questões centrais da discussão sobre o papel da área nas empresas, mas tal discussão – primordial e necessária para ajudar a melhorar a qualidade geral do país – acaba sendo tratada de maneira superficial ou distorcida pela maioria e tem como uma das consequências a propagação de um discurso de falta de mão de obra qualificada que é exagerado, desproporcional e enraizado em uma falsa premissa de unilateralidade de causa.

Esses mesmos atores que propagam a falta de mão de obra qualificada em TI não trazem para a discussão a falta de profissionais qualificados em todas as demais áreas do conhecimento, demandantes dos profissionais de TI e, muitas vezes, autores de barbaridades empresariais cujos resultados moldam o cenário corporativo deficiente no qual a TI está inserida de forma quase onipresente.

Nota-se vir ganhando força um discurso de que a área e os profissionais de TI precisam ser especialistas em tecnologia e ainda devem resolver problemas de áreas fora do seu escopo. Será que esse é o verdadeiro escopo ou função de TI? Não estaria esse discurso ecoando com força cada vez maior porque os especialistas de diversas áreas do conhecimento não estão mais conseguindo desenvolver processos e soluções corporativas que funcionem e, diante disso, depositam as esperanças na tecnologia e nos profissionais que a conhecem?

Acredito que a área de TI tenha a obrigação de ser especialista em TI e de conhecer, mas não de ser especialista, inclusive com anos de experiência, em processos ou áreas de negócio. Sendo especialistas em TI e conhecendo as áreas de negócio, os profissionais poderão atuar dentro do escopo de TI e, de uma forma crítica junto com os reais especialistas das áreas, serão capazes de dimensionar soluções que de fato resolvam os problemas das corporações, minimizando os riscos da automatização de algo mal desenhado ou que não faça sentido do ponto de vista operacional ou empresarial e ainda, derrubando o mito de que a área de TI é corporativamente estanque.

Entretanto, essa realidade ainda é incipiente e hoje são crescentes as exigências para que especialistas em TI também sejam especialistas reais e experientes em processo ou áreas de negócio e isso tem potencial para criar um cenário ainda pouco debatido – pelo fato de a questão ser encarada como um problema não pertencente ao horizonte de curto prazo ou de, na maioria dos casos, nem ser encarada como um problema – que é o do sucateamento de áreas do conhecimento.

Se usando TI e profissionais de TI especialistas em processo ou áreas de negócio for possível resolver os problemas de outras áreas do conhecimento sem demandar profissionais das mesmas, qual será a atratividade delas como profissão no futuro?

Parece que pouquíssimos pararam para pensar na possibilidade de, dentro de poucas décadas, termos uma situação perfeitamente evitável de desemprego em larga escala dos profissionais das áreas administrativas das empresas em função da substituição da maioria deles por soluções tecnológicas.

Quando tal cenário se tornar realidade – e ele vai se tornar em função do modo como o mercado de trabalho e os profissionais vêm sendo tratados – será que ainda vai existir alguém achando um absurdo um profissional de TI sugerir uma formação complementar em Tecnologia da Informação aos profissionais de quaisquer outras áreas?

Nesse texto as considerações trataram apenas de processos de negócio sendo cada vez mais absorvidos por TI, mas o raciocínio pode ser aplicado em qualquer outro cenário de qualquer outra área do conhecimento, seja em pequena ou em larga escala.

[Crédito da Imagem: Tecnologia – ShutterStock]

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Minimum Way

Autor

Profissional de Tecnologia da Informação com experiência nas áreas de Segurança da Informação e Desenvolvimento de Sistemas, tendo atuado nas vertentes técnicas e de gestão dessas áreas. Graduado em Informática, também se especializou em Segurança da Informação e em Gestão Empresarial. Participa de iniciativas nas áreas de Tecnologia da Informação, Segurança da Informação, Forecast Tecnológico e Gestão, onde desenvolve atividades que tratam dos aspectos tecnológicos, sociais, de gestão, de segurança da informação e do futuro de tecnologias existentes e emergentes. www.linkedin.com/in/alexandrepupo

Alexandre Pupo

Comentários

8 Comments

  • Uma ótica que deve ser discutida e aprimorada, pois tem fundamentos consistentes que podemos observar, de forma geral, na maioria das organizações. Porém, como o autor, já existem outros profissionais entendendo este contexto e esta necessidade, adaptando-se e fazendo parte desta mudança de comportamento. Acredito mais em um processo de transformação do que no fator humano sendo relegado em relação ao poder da automação; É meio “Darwiniano” falar assim, mas os ciclos de transformação, acabam por forçar uma adaptação.. muitos sucumbem, mas alguns sempre se adaptam e mantém a eterna roda da transformação girando…. Sou profissional de TI há mais de 20 anos e congratulo o colega pela iniciativa do artigo.

    • Obrigado pelo comentário, Anderson.

      Há profissionais atentos aos acontecimentos e se transformando, mas se observar, há uma espécie de redenção pela tecnologia dentro e fora do mundo corporativo.

      Por um lado isso não é ruim porque a tecnologia, quando bem aplicada, realmente cria possibilidades fantásticas.

      Entretanto, quando a tecnologia é vista como tábua de salvação, temos diversos problemas predecessores e sem nenhuma relação com tecnologia que são empurrados para a área de TI como parte da questão a ser resolvida e isso demanda uma absorção indevida de parte de áreas do conhecimento pelas áreas de TI.

      Esse cenário deveria ser uma exceção, mas parece ser a regra no mundo corporativo atual e tudo indica que tende a ser agravar e se espalhar. Concordo que serão geradas oportunidades para quem tiver se adaptado, mas se a situação for olhada de fora, poderemos ver que não estamos evoluindo enquanto sociedade porque não criamos nada significativo e apenas fazemos uma economia girar em torno de coisas irrelevantes.

      O Silvio Meira escreveu um texto bem interessante nessa linha. É um pouco antigo, mas serve para ilustrar bem a questão e mostra que não evoluímos muito nos últimos anos. Você pode ler em http://terramagazine.terra.com.br/silviomeira/blog/2010/03/28/a-carteira-de-motorista-e-a-informatizao-do-caos.

  • Concordo em muitas coisas que foram ditas, a muito despreparo das outras áreas em relação a TI. São profissionais extremamente qualificados nos seus setores, mas que carecem de conhecimento básico quando se fala em tecnologia. Não estou dizendo que eles precisam ser os Gurus de TI, não.

    Mas que assim como em Sistemas de Informação que procurar ver o outro lado da moeda trazendo um pouco do contexto de humanas,trazer um pouco do contexto de gestão de projetos,de marketing,publicidade,administração e logística com intuito de diminuir o atrito entre os profissionais de diferentes áreas. Facilitando dessa forma a comunicação dentro da empresa e mesmo o crescimento.

    Se a área de Tecnologia tem se adaptado as área mais clássicas no sentido de facilitar a conversa entre as partes , eu particularmente não vejo motivo das outras área não se adaptarem ao contexto de TI também.

    O que percebo e já não é de hoje a disposição e uma obrigatoriedade do Profissional de TI em conhecer não apenas tecnologia mas também administração,marketing,publicidade e logística, mas quando se trata das outras áreas a uma aversão muito grande em se falar de TI e principalmente em aprender, enfim ha uma certa preguiça e apatia das outras áreas.

    Hoje quem faz TI tem uma visão ampla não só da sua área mas também do todo e se ainda não tem essa visão certamente vai sentir na pele a falta desse conhecimento.

    Por outro lado o que vejo são empresas sendo dirigidas ainda dentro daqueles padrões de administração clássica,daquelas que não pensam duas vezes em cortar custos despejando seus funcionário ao invés de rever seus processos.

    O que vejo são administrações que muitas vezes partem para o mais fácil mas que certamente não se caracterizam pelas melhores soluções.

    As duas soluções corporativas mais adotadas pelos empresários e administradores em geral é tentar achar o ponto mais próximo de estrangulamento entre o salário dos seus efetivos e seu desejo de uma vida melhor versus suas obrigações e por último o corte do efetivo.

    Por quê? Simplesmente porque essas soluções são as mais fáceis.

    Os administradores estão preocupados em cortar custos, é isso e apenas isso lhes interesse quando na verdade eles deveriam se preocupar com o problema raiz,no porquê da sua receita na aumentar ou até mesmo ter sido reduzida.

    Esses dias(Ontem mesmo) me ocorreu um pensamento, o quão barato é montar um Call Center com 40 ou 50 pessoas atendendo +- o custo gira entorno de 36000.

    E olha que em um mercado desses eu estaria pagando muito bem porque se formos ver o salário desse efetivo gira entorno de 600 ou 650.

    Quer dizer é muito baixo para padrões de vida atual e isso não acontece apenas no Call Center, acontece em muitos outros setores.

    As empresas precisam parar com essa mentalidade de punir o efetivo pela sua falta de visão.

    As pessoas não são apenas recursos como muitos gerentes gostam de ver a serem distribuídos para lá e para cá.

    Pessoas sobrecarregadas tendem a abandonar seus postos de trabalho e partir para áreas melhores.

    A riqueza de uma empresa não esta no que ela produz ou em sua carteira de clientes, a riqueza de uma empresa esta na qualidade do seu efetivo.

    A qualidade do seu efetivo reflete na qualidade do produto, que reflete na procura pelo seu produto no mercado, que reflete na percepção que o futuro consumidor e investidor tem sobre sua empresa e isso bate no seu bolso.

    Então porquê não tratar melhor aqueles que constroem o nome da empresa, não repensar o processo e aprimorar a qualidade do efetivo.

    Acho que nesse aspecto muitas empresas no brasil apesar da Tecnologia pararam naquele modelo de fordismo. Ainda hoje pode se ver de outra forma aquele retrato da sociedade de laranjas mecânicas, é uma sociedade mais avançada mas suas gestão ainda segue os mesmo princípios daquela época.

    Ninguém deve ser visto como mão de obra em uma empresa, mas sim como colaborador e como tal deve ter sua parte no sucesso da mesma.

    • Obrigado pelo complemento, Henrique.

      Infelizmente, a disposição em conhecer a área de TI ainda não é uma realidade para boa parte dos profissionais de outras áreas e, diante disso, não faz muito sentido continuarem afirmando que a área de TI é estanque dentro das organizações.

      TI já é onipresente do ponto de vista operacional na nossa sociedade e, dados os rumos que tecnologias, modelos de negócio e profissionais vêm tomado, ela também será onipresente do ponto de vista processual dentro de todo o tipo de organização muito em breve.

      O direcionamento para o corte de custos que menciona é um aspecto dificilmente abandonável dentro dos modelos empresariais porque ele acaba sendo saudável quando não é foco exclusivo das ações dos dirigentes, mas vemos que a situação mais comum é a citada por você.

      O agravante moderno adicional do corte de custos para maximização dos lucros é que as tecnologias têm evoluído no sentido de absorverem processos cada vez mais complexos dentro das organizações e de dependerem de uma quantidade cada vez menos profissionais para isso.

      Há um artigo muito interessante escrito por pesquisadores da Oxford Martin School que analisa de forma numérica a questão da substituição de profissionais por soluções tecnológicas e o texto está disponível em http://www.futuretech.ox.ac.uk/sites/futuretech.ox.ac.uk/files/The_Future_of_Employment_OMS_Working_Paper_1.pdf

  • Muito bom artigo.

    Infelizmente, a maioria das empresas ainda tem o conceito de que a máquina e o profissional de TI resolverão todos os problemas de processos e gestão organizacional. Assim como os profissionais de gestão tem a necessidade de serem especialistas em processos e soluções cabíveis às suas áreas de atuação, o profissional de TI tem que ter no mínimo conhecimento processual das áreas em que atuam ou implantam seus sistemas.

    O mercado de trabalho e as empresas não estão ainda cientes do papel dos profissionais de TI e muito menos de áreas adjacentes. Desconhecem as funções dos profissionais que trabalharam nas áreas de TI, gestão, entre outras. Exigem qualificações desnecessárias, excluem àqueles que tem alta qualificação, e que são essenciais as tomadas de decisão e desenvolvimento das empresas.

    Isto é Brasil, enquanto não tivermos consciência de que as empresas nacionais necessitam de processos próprios e que se adequem as legislações internas continuaremos copiando processos que se adequam apenas ao mercado americano.

    Falta profissional qualificado sim à frente das seleções de profissionais e na gestão de empresas.

  • Ótimo post, gostei bastante!

  • ótimo artigo, gostei bastante

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