Quando aquele cruzado de direita acertou em cheio o queixo do Anderson Silva e ele foi à lona com os olhos esbugalhados, francamente não acreditei! Depois que acabou a luta suas desculpas deixaram todos pasmos; passados alguns dias e depois de se refugiar no amparo da sua família, seu discurso mudou: ele admitiu o erro. Não ficou explícito (e nem precisava) que ele errou a distância que normalmente dá para os seus adversários e acabou na lona.
No mundo corporativo não é diferente. Muitas vezes errarmos a distância e, mesmo sem querer, acabamos na lona. Porém, diferente de uma luta de MMA, onde o campeão derrotado se prepara, corrige seus erros, vai para uma revanche e, em pouco tempo consegue recuperar seu cinturão, no mundo corporativo o calvário após a queda pode ser bem maior.
O início da carreira profissional assemelha-se ao lutador: começa a participar de lutas e sonha chegar ao cinturão; erra-se a distância constantemente e os nocautes (comuns), dificilmente machucam e rapidamente estão de pé novamente. No mundo corporativo é muito parecida: caímos, seja porque a empresa foi vendida, porque erramos na escolha das empresas ou por mais uma série enorme de motivos, e semelhante ao lutador iniciante, levantamos rapidamente.
A cada nocaute mais uma vitória e o score sobe. Logo, de desafiador você passa a desafiado: escolhe com quem lutar e quanto cobrar por cada luta; em diversos momentos o medo da derrota passa a ser maior do que o da vitória; até pouco tempo atrás não tinha muito o que perder, mas hoje a situação é diferente e, além do nome a zelar, existe um monte de gente que depende de você; a cada dia, a cada contrato ou projeto, ficamos mais hábeis mas muito mais cuidadosos com os nossos adversários e até com nossos “amigos”, afinal ocupamos um lugar que já não é mais comum. Ele é desejado por muitos.
Mais uma luta e, por um descuido, acontece o nocaute: um acordo mal feito, uma corrente política que começa a ventar para outros lados ou simplesmente um vacilo e estamos na lona. Nocaute! Ou, no mundo corporativo: desemprego.
A tontura que bate é igual ou até maior que a de um campeão de MMA depois de ter beijado a lona: não falamos coisa com coisa e, na verdade, pouco acreditamos que aquilo esteja acontecendo. A primeira sensação é se achar vítima. Mas com um pouco de equilíbrio, percebemos que não há mais nada a fazer a não ser recomeçar.
No MMA, o desejo de pagar ingressos e pay per views pelos seus fãs conduzirá o campeão à oportunidade de uma revanche; no mundo corporativo, sua história (junto com sua rede de contatos e as decisões acadêmicas que tomou) serão os balizadores que irão definir se você terá ou não uma nova oportunidade.
Diferente do início da carreira o envio de um CV ou uma indicação qualquer era o suficiente para uma recolocação, agora não mais. Dependendo do nível executivo que se estava, enviar CV não é uma boa alternativa. O que realmente conta é como passou a vida montando sua rede de relacionamentos e como conduziu seu conhecimento acadêmico para suportar sua subida corporativa.
O caminho, na maioria das vezes, não é simples. A queda é sempre vertical, mas a subida nem sempre o é. Muitas vezes é necessário, primeiro, ajoelhar-se na lona, depois sentar no banquinho, para finalmente voltar a ficar de pé e caminhar. Estes movimentos, para a maioria das pessoas, é muito dolorido.
Olhar para a plateia depois de beijar a lona pode ser vergonhoso demais; voltar em uma posição menor para depois buscar a posição que se estava igualmente pode parecer vergonhoso, mas na maioria das vezes é o necessário. O tempo fora dos ringues corporativos é um enorme contaminador de mentes e bolsos; às vezes, mesmo não querendo, somos obrigados a aceitar lutas com menos expressão e com cachês menores para conseguir pagar as contas que insistem em chegar todos os dias.
Durante a procura de uma nova oportunidade você irá lembrar de todos os fornecedores que tripudiou e todas as brincadeiras que fez com os profissionais que passavam muitas noites e finais de semana estudando para uma formação acadêmica ou uma certificação; irá ligar para todos eles e terá uma enorme possibilidade de encontrar as portas fechadas da mesma maneira que as fechou anos atrás.
Acredite: mesmo para conseguir posições menores e retomar a caminhada em direção a posição que perdeu, seu relacionamento com todos os profissionais que passaram pelo seu caminho fará a diferença.
Nesta caminhada de volta, muitos não terão pernas assim tão fortes; apenas os mais persistentes, os mais disciplinados e os mais perseverantes conseguiram levantar do nocaute com a ajuda dos amigos que fez e recuperar um dia o seu cinturão (ou melhor, a cadeira) que já foi seu, apoiado em todo conhecimento acadêmico que adquiriu durante a vida.
5 comentários
Tenho acompanhado semanalmente o Descomplicando Carreiras, e tenho a honra de ser amigo do Prof. Alberto Parada. Este texto em específico foi uma das melhores comparações do mundo corporativo que já tive conhecimento.
Parada Parabéns
Simplesmente magnífico
.
Meu amigo Gaspardi, a honra da amizade é toda minha!
Belíssimo Parada, parabéns. Forte abraço,
Parafraseando uma de suas respostas anteriores. Excelente reflexão! Belo gancho de direita!!
Parabéns pelo excelente artigo Alberto! Para que está na lona, como eu nesse momento, são palavras de estímulo a não desistir e poder enfrentar todas as lutas ainda por vir como muito mais preparo, garra e disposição!