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A sua empresa é tartaruga, tem DNA privilegiado, é Damião ou genial?

publicado por Ricardo Boessio dos Santos

Dias atrás vi uma entrevista com o Leandro Damião (atacante da Internacional e da seleção brasileira). Passei a respeitá-lo mais, mas não pela história de dificuldade (o rapaz foi abandonado pela mãe quando criança, o pai ralou para criá-lo em uma das regiões mais violentas de São Paulo, o Jardim Ângela).

Também não foi pela força de vontade, pois o rapaz foi rejeitado por todos os clubes grandes, médios e pequenos de São Paulo, tomou “não” na cara na “peneira” de 10 times, só conseguiu uma oportunidade em um timéco de Santa Catarina, chamado Atlético de Ibirama, por causa da ajuda de um amigo. Mesmo assim o empresário que iria levá-lo o deixou esperando das 16h00 às 01h00 (sim, NOVE horas esperando), apareceu, levou-o e depois sumiu no mapa novamente.

E também não é pela humildade do rapaz que mesmo depois de ter conseguido aparecer no futebol não vive em baladas, tem uma casa que não é uma mansão de 500 quartos, não tem um monte de carrões de R$ 1 milhão cada na garagem e disse que não precisa disso tudo, pois tem que pensar no futuro já que a carreira de jogador é curta.

Tudo isso é de se admirar, mas a determinação dele que era xingado pela torcida do Atlético de Ibirama (Atlético de onde?) e continuou treinando e melhorando até conseguir uma oportunidade na Inter, onde foi colocado no time de base aos 20 anos de idade, um “veterano”, para melhorar os fundamentos básicos, pois a comissão técnica da Inter viu que ele tinha muitos problemas de fundamentos. Passou mais de um ano e meio na base, depois “esquentou” o banco por muito tempo até que em um jogo o atacante titular se machucou e não tinha mais ninguém para o técnico colocar no lugar, todos os outros estavam suspensos ou machucados. Era o segundo jogo da final da Libertadores contra o Chivas Guadalajara do México. O primeiro jogo havia sido uma vitória da Inter por 2 x 1, mas ao final do primeiro tempo o Chivas estava vencendo por 1 x 0, placar que dava o título aos mexicanos. A Inter empatou aos 14 minutos do segundo tempo, placar que voltava o título para os gaúchos, mas muito perigoso, pois bastava um gol dos mexicanos para a taça ser definida nos pênaltis.

Damião, um desconhecido da maioria e quem o conhecia só sabia das suas deficiências e da “vergonhosa” passagem pela base da Inter já “velho” e por muito tempo, entrou aos 27 minutos deste segundo tempo no lugar de quem fez o primeiro gol, Rafael Sóbis, ídolo da torcida.

Em 4 minutos marcou um gol, em 14 minutos provocou a expulsão de um mexicano e 3 minutos depois deixou outro atacante de cara para o gol para marcar o 3º gol, dando tranquilidade aos 44 minutos do 2º tempo. Placar final do jogo 3 x 1, título da Libertadores para a Inter.

Ainda sim em 2010, ano deste feito, ele não conseguia a confiança da comissão técnica e nem da torcida, mas era colocado para jogar de vez em quando, e sempre marcando gols. Foi assim o ano inteiro de 2010.

Até que recebeu a camisa 9, de títular, em janeiro de 2011, para o campeonato gaúcho. A Inter queria poupar alguns jogadores para se recuperarem, entrarem mais para o final do Gauchão e estarem prontos para o Brasileirão e a Libertadores de 2011.

Resultado, em 13 jogos o Damião marcou 17 gols, a Inter foi campeã, Damião eleito o melhor jogador do campeonato e artilheiro. A torcida já o aplaudia, mas a comissão técnica ainda desconfiava um pouco e os comentaristas de futebol só lembravam de apontar os defeitos dele.

Em agosto de 2011 jogou a Recopa contra o Independiente da Argentina. Primeiro jogo foi vitória dos argentinos por 2 x 1, lá em Buenos Aires, sendo que o gol salvador da Inter foi dele, Leandro Damião. Jogo de volta, Porto Alegre, Inter 3 x 1 nos argentinos com dois gols do Damião. Acabou a temporada de 2011 com 40 gols em 54 jogos pela Inter, sendo que ele ficou afastado mais de um mês por uma contratura muscular e o seu retorno foi lento, explicando o maior número de jogos do que de gols.

E assim seguiu a vida do Leandro Damião. Até hoje ele treina muito. E o principal: fala isso com orgulho e não vergonha. O cara que até dois anos atrás, com 21 anos de idade (hoje ele tem 23 anos), quando o Neymar já era aclamado por todos, era considerado um cara bem ruinzinho e que faltava corrigir fundamentos do futebol. O que me faz respeitar este cara é que ele tem um talento (não muito, mas tem), mas não se deita sobre este talento como fazem MUITOS jogadores, ele treina muito para melhorar sempre. Esta é a diferença do cara que nasce com um dom para o gênio: o dom veio no DNA, mas a genialidade é obtida com treino, com estudo, com aperfeiçoamento.

Ayrton Senna era gênio. Mas é dele o maior número de frases de efeito sobre treinar, se aperfeiçoar, buscar mais, buscar ir além.

Oscar Schimidt é um gênio. Primeiro jogador que nunca jogou na NBA, mas foi reverenciado no hall da fama deles. Chame-o de “Mão Santa” para ver a resposta imediata: “detesto este apelido, não tem nada de ‘santa’ esta mão, é muito treino, muitas tentativas, muita prática”.

Ronaldo, Fenômeno, é gênio. Procure saber o que os companheiros de clube falam dele. Primeiro a chegar, último a sair dos treinos. Arrebentou os dois joelhos e mesmo assim, quando todo mundo dizia que era o fim da carreira dele, se empenhou no tratamento médico, treinou para se recuperar fisicamente e fortalecer os joelhos e foi pra Copa do Mundo de 2002. Resultado: artilheiro da Copa, maior artilheiro de Copas do Mundo de todos os tempos (após a Copa de 2006 e ainda não superado), campeão mundial e fez os dois gols da final, contra uma Alemanha muito forte e contra o goleiro chamado de “parede alemã” e eleito o melhor jogador daquela Copa (desde então a FIFA mudou o critério de eleição do melhor jogador, pois até 2002 a eleição era feita antes da Final, e com aquela atuação do Fenômeno, todos ficaram sem graça com a escolha do goleiro alemão como o melhor da Copa). Eleito melhor jogador do mundo pela FIFA em 2002 (assim como em 1996 e 1997), Ballon D’Our 2002 (e 1997), Onze D’Our 2002 (e 1997), Melhor Jogador do Mundo pela revista World Soccer em 2002 (assim como 1996 e 1997), entre outros prêmios após este problema físico.

Michael Jordan, outro gênio, era ridicularizado pela falta de altura e pela magreza quando adolescente. Se esforçou muito para atingir 1,98, algo que não é tão excepcional em meio aos 2,10 da maioria. Se esforçou mais ainda até obter alguma força muscular que o desse suporte e rapidez para compensar a altura. E treinou a técnica até se tornar um dos maiores gênios do basquete mundial. Compensou a falta de altura tornando-se um dos maiores “voadores” do basquete, recebendo a alcunha de Michael “Air” Jordan devido aos seus saltos fantásticos.

Lionel Messi, mais um gênio, era para ser considerado um anão. O pai dele o levou, ainda criança, até a Espanha para ser tratado. Mas desde muito novo treinou muito para desenvolver a técnica de carregar a bola colada ao seu pé, única forma de não ser obrigado a dividir jogadas com jogadores bem mais fortes que ele. E por isso, quando um jogador dava uma “chegada” nele, atingia bola e o Messi junto. Até hoje o pequeno Messi cai e levanta, continua olhando para a bola e correndo atrás dela sem abrir os braços, rolar pelo gramado fazendo um escândalo e fingindo uma dor que não sentiu, ou até sentiu, mas foi menor do que a gana dele em continuar em pé e desafiar os zagueiros fortões, com o dobro do tamanho dele. Quando ainda pré-adolescente aplicava em si mesmo as injeções com hormônios para o crescimento como parte de um tratament0 médico, já que havia sido detectado um problema hormonal que o impediria de crescer mais do que 1,50 mt (hoje ele tem 1,69 mt). Ele mesmo aplicava injeções todos os dias, no joelho esquerdo e no direito, por UM ANO E MEIO, sem precisar que alguém falasse para ele fazer isso. Os amigos de infância o descreviam como obstinado, eu diria regrado, ao ponto de ser convidado para dormir na casa de um deles, algo bem comum entre os adolescentes, e ele se preocupar em pegar primeiro o kit de injeções. Isso tudo aos ONZE anos de idade. Hoje, aclamado mundialmente, o Messi não precisa mais de injeções, mas continua treinando mais do que o resto dos seus companheiros de Barcelona.

O Damião não é gênio. O Leandro Damião nunca será gênio. Porque a ele foi negada a parte do DNA. Mas o Damião é muito superior a muitos jogadores que tem um presente no seu DNA, só que acham que só isso já basta. Basta para você se destacar. Basta para você conseguir aquele contrato mais gordo. Mas não basta para te levar e manter no topo por algum tempo.

Toda vez que eu vejo um garoto ou uma garota estufando o peito para dizer que fez “tal coisa” (algum feito esportivo ou não) sem treino, sem estudo, sem precisar de algo a mais, eu penso “que droga, péssimo exemplo”, pois este (a) garoto (a) não sabe que não irá muito longe, que o feito tem mais a ver com sorte e algum talento, mas isso não basta.

Talento ajuda, e muito, mas só isso não serve para te dar as bases necessárias para enfrentar momentos longos e turbulentos no topo.

Aí vocês podem perguntar: legal, mas e o que isso tem a ver com este site?

Simples, é o mesmo pensamento que pode ser aplicado em uma empresa.

Quando eu vejo uma empresa com um produto/serviço diferente, inovador, ou que achou um nicho interessante, mas não se importa com boas práticas, não está nem aí para uma gestão bem feita, acha que governança e as sopas de letrinhas são coisas inventadas por alguém só para ganhar dinheiro e não se preocupa com o planejamento estratégico, pois “para que isso tudo se eu estou ganhando R$ XX?”, eu me preocupo. Hoje você está ganhando R$ XX, mas amanhã pode não estar.

Amanhã vem um concorrente seu que está melhor preparado e começa a engolir seu mercado. Acontece uma crise mundial e você não se sustenta. Ou ocorrem as duas coisas. E você se pergunta como é que ganhou tanto há pouco tempo atrás e agora está assim. Ou você culpa a crise, o concorrente “desleal”, o governo e suas taxas, tributos e impostos. Tudo isso havia antes, exceto o concorrente, mas não é que ele seja desleal, ele apenas tem uma gestão melhor, por isso consegue praticar valores melhores e produzir com qualidade superior. Mas isso não importa, afinal você não vai cair neste conto de boas práticas, não é mesmo?

Se este concorrente não o afetar tanto assim, se não surgir uma crise tão grande a ponto de afetá-lo, pior ainda. É o momento em que o pensamento fica mais arraigado ainda: “Está vendo só, tudo passa e a minha empresa fica!! Ainda estou ganhando R$ XX”. Nesse momento eu digo: Sim, mas você poderia ganhar R$ XXXX em vez de apenas R$ XX.

É quando sua empresa morre (ou caminha, em vez de correr) porque tinha um “Q” a mais no “DNA” dela, mas esqueceu de treinar, de buscar se aperfeiçoar, procurar melhorar e tornar a sua empresa uma empresa genial.

Me lembro de uma situação curiosa que ilustra este tipo de situação, da empresa ao jogador com bom DNA, mas que não se preocupa com boas práticas ou treinos.

Em um congresso para profissionais de Educação Física, há uns 14 anos atrás, veio ao Brasil um gringo “evangelista” do exercício físico. Na palestra dele tinham muitos profissionais da área atentos às idéias dele, explicações fisiológicas, explicações anatômicas e etc, mostrando que a prática de exercício físico (mesmo uma corridinha por 45 minutos dia sim, dia não), ajudaria a melhorar a saúde e aumentar a expectativa de vida.

Quando ele abriu para perguntas, um “engraçadão”, perguntou: se exercício físico é tão bom, como é que uma tartaruga vive até 200 anos?

Após alguns risos, poucos urros, outros tantos aplausos, o palestrante, esperando um pouco aquietarem-se, respondeu: é verdade, chega até 200 anos e sem fazer nada… Imagine o quanto viveria se ela se exercitasse!

Uma avalanche de aplausos seguiram a resposta. O questionador sumiu. A platéia se convenceu.

E então, a sua empresa é uma tartaruga vivendo 200 anos, por isso está tudo bem? Ela tem um “DNA” privilegiado e por isso não precisa de mais nada?

Pense bem. E imagine se ela se exercitasse (treinasse, buscasse boas práticas).

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Autor

Ricardo Boessio é formado em Engenharia de Software e está há uma década envolvido com processos, projetos e governança de TI. Certificado PMP, ITSM e ITIL e CObIT Foundation e com formação Six Sigma Green Belt. Adora a área de Processos e Qualidade e mesmo depois deste tempo todo ainda tem os mesmos brilhos nos olhos quando se trata de boas práticas. Diretor de Consultoria, Operações e Delivery da Heimdall Consultancy. Também gosta muito de quase todas as vertentes do rock, pricnpalmente prog metal, música clássica, jazz, blues e MPB.

Ricardo Boessio dos Santos

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