Desenvolvimento

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Um E-mail para Sua Majestade

publicado por Heverton Anunciação

De (from): pero.vaz.caminha@paubrasil.com.br

Para (to): domjoao@atrasdosmontes.portugal.gov

Assunto (Subject): Quais Índias eram mesmo ?

E aí Majestade, tudo beleza? 😉

Não chegamos bem exatamente às Índias, mas de qualquer jeito, há índias. Os ventos trouxeram-nos aos mares do sul, a um lugar desconhecido da civilização até o momento. É uma ilha de belezas imensuráveis e de riquezas incalculáveis e, para melhorar, já temos controle total sobre os seus habitantes. Porém, tivemos várias situações estranhas.

Ao atracarmos nossas caravelas às margens da ilha, por exemplo, uns índios mal-encarados queriam cobrar para vigiar nossas caravelas. Caso não pagássemos, eles riscariam os cascos das caravelas. Então, para não criar conflitos, pagamos com alguns sacos de farinhas. O interessante é que, a partir desse dia, toda a economia da ilha foi indexada ao saco de farinha. Criaram até a Bolsa da Farinha, que, por sinal, hoje está operando com alta de 0,3.

No desembarque, um outro grupo de índios já nos aguardava. Estes se identificaram como membros de uma comissão de pré-análise e queriam saber sobre o nosso projeto de conquista. Eles vieram com umas perguntas sobre o que alegaram ser os direitos deles: registro em carteira; sindicato; participação nos lucros; jornada de 40 horas; lei de assédio sexual; etc. Isso porque o último Reino que tentou conquistar a ilha fracassou na implantação de uma tal de RISO 9 000 e eles preferem se garantir. Não entendi nada, então nos recomendaram que fôssemos a um consultor. Ele faria uma pajelança para dar tudo certo. Tivemos que pagar 30 sacos de farinha por hora para ouvir seus conselhos, mas valeu a pena. Ele nos orientou a implantar um processo de terceirização. Achei uma idéia de gênio: utilizar a mão-de-obra da África, com a qual obteremos um custo zero menos 2. Não é incrível?

Esse mesmo consultor tinha dado uma idéia para melhorar a organização desaministrativa deles: colocar um cacique com cachimbo grosso num cargo criado especialmente para ele. Deram a isso o nome de CIO (Chief Indio Office). Até agora isso não deu resultado, mas eles têm gasto bastante farinha para achar índios capazes de dar conta de um cachimbo tão grande. Isso tem dado tanto trabalho que alguns índios largaram a caça e a pesca para viver de caçar CIOs. São os cachimbão-hunters, que cobram muita farinha para fazer esse serviço. Por causa disso, a ilha está ficando com muito cacique para pouco índio.

A última grande mudança feita por eles foi uma coisa chamada reengenharia. Esta possibilitou a criação do processo JustoAgora — o sistema em que os africanos nos avisam quando o estoque de pau-brasil de Vossa Majestade acabou.

Os índios que moram no lado esquerdo da ilha nos pediram ajuda para solucionar algumas coisas estranhas que estão acontecendo, o que é conhecido como crime do cocarzinho branco. Funciona assim: o cacique ganha um monte de farinha, sem nunca ter pego em saco de farinha. Ainda estamos tentando compreender melhor esse sistema. Talvez seja o caso de fazermos um benchmarking, que é como eles denominam o ato de copiar coisas prontas em vez de ter as próprias idéias.

A principal forma de diversão dos indígenas é o cocobol. Os índios correm atrás de um coco, chutando-o em direção a uma rede amarrada entre duas árvores. Metade usa umas penas na cabeça; a outra metade, não. O público que assiste a essa chutação de coco fica gritando o tempo todo. Quando o coco bate na rede uma parte deles pula e se abraça. Outra parte fica meio triste. Não entendi nada, mais uma vez. Ah! Fizeram um time em homenagem ao Vasco da Gama, pois o mesmo perdeu um dos dedos ao tentar chutar um coco. Uma das fontes de riqueza da ilha é a troca de famosos chutadores de coco por sacos de farinha com as outras ilhas vizinhas. Pelo que deu para perceber, alguns se tornam muito influentes. Um desses chutadores famosos fez até uma lei, a única que vigora na ilha. Qual era mesmo o nome dele? Ah! Lembrei, Gerson. É a Lei de Gerson. Ela diz basicamente o seguinte: um coco na mão vale mais do que dois sacos de farinha.

O meio de comunicação utilizado por aqui é muito avançado: a Tambornet. Trata-se de uma rede de tambores espalhados por toda a ilha. A propósito, esta carta está sendo enviada por meio da Tambornet. Trata-se de uma rede de tambores espalhados por toda a ilha. A propósito, esta carta esta sendo enviada por meio da Tambornet. Espero que chegue. Eles falaram que é confiável. Para mais detalhes, reply.  🙁

Heverton Anunciação

www.heverton.com.br

Artigo publicado originalmente nos 500 anos do Brasil pela Revista Exame, mas não mudamos tanto assim, não e ?!?

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Autor

O consultor e pesquisador Heverton Anunciação, nascido em Brasília, atualmente residindo em São Paulo, atua em Tecnologia da Informação e Marketing de Relacionamento. Além disso, colabora com textos em renomadas revistas sobre os mais variados assuntos, que vão desde crônicas a Administração de empresas e Responsabilidade Social. Estudou Tecnologia em várias instituições do Brasil e do exterior e, atualmente, especializa-se nas novidades do mundo do Marketing, da Responsabilidade Social, do Atendimento ao Cliente e da Administração de Empresas. Autor de livros muito respeitados, inclusive o Nunca Se Case Antes dos 30 com entrevistas no programa Fantástico (Rede Globo), Hebe Camargo, Ronnie Von e em todo o Brasil com suas pesquisas sérias e imparciais. Uma importante informação a respeito do autor é que ele é o criador do primeiro portal imparcial sobre espiritualidade e Responsabilidade Social na Internet: www.eDeus.org. Você poderá entrar em contato com o autor nos seguintes endereços na Internet:

Heverton Anunciação

Comentários

1 Comment

  • Excelente artigo. Inteligente e cômico.

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