ISO/IEC 9126 vs ISO/IEC 25000 (SQuaRE): Qualidade de Software em 2026

Por que a ISO/IEC 9126 ficou no passado e como o SQuaRE mudou a forma de pensar qualidade de software

por Augusto Vespermann
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ISO/IEC 9126 vs ISO/IEC 25000: Evolução da Qualidade de Software e Orientação para 2026

A ISO/IEC 9126-1:2001 está formalmente retirada (Withdrawn) desde 13/09/2012.
Se a sua organização ainda referencia essa norma em especificações de
qualidade de software,
este artigo apresenta as mudanças estruturais, as implicações práticas e as recomendações para adequação normativa.

A substituição da ISO/IEC 9126 pela série ISO/IEC 25000 (SQuaRE) representa mais do que uma atualização nomenclatural.
Trata-se de uma mudança paradigmática: de um modelo descritivo focado em avaliação pós-desenvolvimento para um framework integrado
que abrange todo o ciclo de vida do produto.

Síntese

  • ISO/IEC 9126-1:2001 — Retirada em 13/09/2012 (status: withdrawn)
  • ISO/IEC 25010:2023 — Versão vigente do modelo de qualidade de produto
  • ISO/IEC 25019:2023 — Modelo atual de qualidade em uso (3 características com subcaracterísticas)
  • Recomendação: Adotar a série ISO/IEC 25000 em todos os novos projetos

ISO/IEC 9126: Fundamentos e Contexto Histórico

A ISO/IEC 9126
foi publicada originalmente em dezembro de 1991 e revisada substancialmente em junho de 2001. Representou o primeiro esforço sistemático da ISO
para estabelecer um vocabulário consensual sobre qualidade de produto de software, influenciando diretamente a norma brasileira NBR 13596.

A estrutura completa da norma compreendia quatro documentos complementares:

Tabela 1 — Estrutura da ISO/IEC 9126 (2001-2004)
Documento Escopo Publicação Status
ISO/IEC 9126-1:2001 Quality model Junho 2001 Withdrawn
ISO/IEC TR 9126-2:2003 External metrics 2003 Withdrawn
ISO/IEC TR 9126-3:2003 Internal metrics 2003 Withdrawn
ISO/IEC TR 9126-4:2004 Quality in use metrics 2004 Withdrawn

O modelo de qualidade definido pela ISO/IEC 9126-1:2001 estabeleceu seis características principais, cada uma decomposta em subcaracterísticas
mensuráveis através das métricas
propostas nos relatórios técnicos complementares:

  1. Funcionalidade — Capacidade de prover funções que atendam necessidades declaradas e implícitas sob condições especificadas.
  2. Confiabilidade — Capacidade de manter nível de desempenho especificado quando usado em condições estabelecidas.
  3. Usabilidade — Capacidade de ser compreendido, aprendido, operado e atraente ao usuário.
  4. Eficiência — Capacidade de apresentar desempenho apropriado em relação à quantidade de recursos utilizados.
  5. Manutenibilidade — Capacidade de ser modificado, incluindo correções, melhorias e adaptações.
  6. Portabilidade — Capacidade de ser transferido de um ambiente para outro.

Limitações Identificadas

A experiência acumulada ao longo de duas décadas de aplicação revelou limitações estruturais que motivaram o desenvolvimento de um framework substituto:

  • Foco restrito à avaliação de produtos finais, sem orientações para fases anteriores do ciclo de vida
  • Ausência de processos de avaliação padronizados (cobertos separadamente pela ISO/IEC 14598)
  • Métricas propostas em caráter informativo, sem padronização operacional
  • Fragmentação conceitual entre qualidade interna, externa e em uso
  • Inexistência de orientações para especificação de requisitos de qualidade

A retirada formal da ISO/IEC 9126-1:2001 consta no
registro oficial na ISO.

ISO/IEC 25000 (SQuaRE): Arquitetura e Evolução

A série ISO/IEC 25000
foi concebida para unificar e substituir tanto a ISO/IEC 9126 quanto a ISO/IEC 14598.
A primeira edição, publicada em 2005, adotou a denominação Software Product Quality Requirements and Evaluation (SQuaRE).

Em 2014, a segunda edição ampliou o escopo para Systems and Software Quality Requirements and Evaluation,
refletindo a convergência entre engenharia de software e engenharia de sistemas — tendência consolidada na
engenharia de software contemporânea.

ISO/IEC 25000:2014 como “Guia” e Referência Arquitetural da Série

Para entender a série SQuaRE sem virar refém de siglas, o documento-chave é a ISO/IEC 25000:2014
(“Guide to SQuaRE”). Ele funciona como uma referência arquitetural do ecossistema: descreve o propósito de cada divisão,
organiza a família de normas e explicita o processo de transição entre as séries antigas (ISO/IEC 9126 e ISO/IEC 14598) e o SQuaRE.
Em termos práticos: é o “mapa do território” para você não aplicar pedaços da série fora de contexto.
Veja a descrição oficial:
ISO/IEC 25000:2014.

Tabela 2 — Arquitetura da Série ISO/IEC 25000 (SQuaRE)
Divisão Denominação Escopo
ISO/IEC 2500n Quality Management Modelos de referência, terminologia e visão geral do SQuaRE
ISO/IEC 2501n Quality Model Modelos de qualidade de produto, dados, serviços e qualidade em uso
ISO/IEC 2502n Quality Measurement Framework de medição e métricas padronizadas
ISO/IEC 2503n Quality Requirements Especificação de requisitos de qualidade
ISO/IEC 2504n Quality Evaluation Processos e métodos de avaliação
ISO/IEC 25050–25099 Extension Domínios específicos (IA, COTS, sistemas críticos)

A documentação oficial da série está disponível na
página do ISO/IEC JTC 1/SC 7.

Onde entram ISO/IEC 25002 e ISO/IEC 25019 (e por que isso importa)

A divisão 2501n (Quality Model) não é “só a 25010”. Ela engloba modelos detalhados para diferentes alvos:
produto (ISO/IEC 25010), serviços de TI (ex.: ISO/IEC TS 25011),
qualidade de dados (ex.: ISO/IEC 25012) e qualidade em uso (ISO/IEC 25019).
Essa visão aparece nos materiais oficiais do ecossistema SQuaRE.

Além disso, a própria ISO/IEC 25010:2023 deixa claro um ponto que muita gente perde:
ela revisa o modelo de qualidade de produto e move o que era “parte estrutural/explicativa” para a ISO/IEC 25002
(overview e uso de modelos de qualidade) e move o modelo de qualidade em uso para a ISO/IEC 25019.
Ou seja: se você quer o pacote conceitual completo, não é “25010 sozinho”. É 25010 + 25002 + 25019.
Referências:
ISO/IEC 25010:2023,
ISO/IEC 25002,
ISO/IEC 25019:2023.

Análise Comparativa: ISO/IEC 9126 vs ISO/IEC 25000

A diferença fundamental entre as normas transcende a quantidade de características. Trata-se de uma mudança de paradigma na forma de abordar
qualidade de software
— de atributo avaliável pós-facto para disciplina integrada ao ciclo de desenvolvimento.

Tabela 3 — Comparação Estrutural entre ISO/IEC 9126 e ISO/IEC 25000
Aspecto ISO/IEC 9126 ISO/IEC 25000
Status normativo Withdrawn (13/09/2012) Vigente (rev. 2023)
Estrutura documental 4 partes 5 divisões + extensões
Características de produto 6 9 (ISO 25010:2023)
Qualidade em uso TR (métricas em uso) Modelo formal (ISO 25019:2023 — 3 características)
Métricas Informativas (TR) Padronizadas (divisão 2502n)
Processos de avaliação Externos (ISO 14598) Integrados (divisão 2504n)
Requisitos de qualidade Não especificados Definidos (divisão 2503n)
Abordagem temporal Avaliação pós-desenvolvimento Ciclo de vida completo

Evolução do Modelo de Características

A tabela seguinte documenta a evolução das características de qualidade de produto desde a ISO/IEC 9126-1:2001 até a versão atual da
ISO/IEC 25010:2023:

Tabela 4 — Evolução das Características de Qualidade de Produto
ISO/IEC 9126-1:2001 ISO/IEC 25010:2011 ISO/IEC 25010:2023
Funcionalidade Adequação Funcional Adequação Funcional
Eficiência Eficiência de Desempenho Eficiência de Desempenho
Compatibilidade (nova) Compatibilidade
Usabilidade Usabilidade Capacidade de Interação (renomeada)
Confiabilidade Confiabilidade Confiabilidade
Segurança (nova) Segurança (Security)
Manutenibilidade Manutenibilidade Manutenibilidade
Portabilidade Portabilidade Flexibilidade (renomeada)
Safety (nova em 2023)

A inclusão de Safety (segurança física) como característica independente na versão 2023 reflete a crescente importância de sistemas críticos
em domínios como saúde, transporte e automação industrial.

Fatores de Persistência da ISO/IEC 9126

A presença contínua da ISO/IEC 9126 em publicações acadêmicas e buscas online decorre de fatores estruturais que merecem análise:

Inércia acadêmica. A norma foi amplamente adotada entre 1991 e 2011. Artigos publicados nesse período continuam sendo citados em revisões sistemáticas e trabalhos derivados, frequentemente sem verificação do status normativo atual. Bases de dados indexam o conteúdo histórico sem distinção de vigência.

Simplicidade didática. O modelo de seis características é mais acessível para introdução ao tema do que a estrutura hierárquica da série 25000. Muitos programas de graduação utilizam a 9126 como ponto de partida conceitual antes de apresentar o framework atual.

Disponibilidade de material. Durante anos, a documentação sobre a 9126 circulou mais livremente em repositórios acadêmicos. As normas ISO são documentos comercializados, e a 9126, por sua antiguidade, teve maior disseminação informal.

Profissionais formados antes de 2011. Engenheiros e gestores que consolidaram sua formação entre 1990 e 2010 frequentemente mantêm a 9126 como referência mental, reproduzindo-a em especificações e documentos sem acompanhar a evolução normativa.

Nota importante: Referenciar a ISO/IEC 9126 como norma vigente em novos projetos, dissertações ou artigos científicos configura desatualização técnica.
A norma pode ser citada em contextos históricos ou comparativos, desde que identificada como substituída/retirada (Withdrawn).

Recomendações por Contexto de Aplicação

A série ISO/IEC 25000 constitui a referência normativa vigente. A tabela seguinte orienta a seleção de documentos conforme o contexto de uso:

Tabela 5 — Recomendações Normativas por Contexto
Contexto Documento Recomendado Observação
Novos projetos de software ISO/IEC 25010:2023 Versão atual do modelo de qualidade
Dissertações e teses ISO/IEC 25000 (série) Citar 9126 apenas como referência histórica
Artigos científicos ISO/IEC 25010:2023 Referenciar versão mais recente
Licitações e contratos públicos ISO/IEC 25000 (série) Norma vigente para conformidade
Setores regulados ISO/IEC 25010:2023 + 25019:2023 Safety relevante para saúde e aeroespacial
Ensino introdutório 9126 → 25010 (sequencial) Contextualizar status de cada norma
Revisões bibliográficas Ambas (com contexto) Identificar status normativo de cada referência

Checklist prático de migração (9126 → 25000)

  • Identificar onde 9126 ainda aparece: revisar contratos, RFP, SRS, critérios de aceite, políticas de qualidade, templates de proposta e SLA.
  • Substituir referências: trocar “ISO/IEC 9126-1:2001” por “ISO/IEC 25010:2023” (qualidade de produto) e “ISO/IEC 25019:2023” (qualidade em uso).
  • Atualizar critérios de aceitação: traduzir requisitos/atributos antigos em métricas e evidências alinhadas à divisão 2502n (medição) e aos processos da 2504n (avaliação), vinculando-as a entregas incrementais e releases.
  • Evitar “compliance de mentira”: jamais citar 9126 como “norma vigente” em novos documentos; se for citar, sempre indicar status Withdrawn e contexto histórico.
  • Capacitar times internos: sessões rápidas mostrando a evolução de 6 características (9126) para 9 (25010) e o modelo de qualidade em uso na 25019 (3 características, com subcaracterísticas).

A migração não exige partir do zero: você mantém a lógica de qualidade e atualiza vocabulário e estrutura de acordo com a série ISO/IEC 25000.

Esclarecimento sobre Certificação

Uma distinção frequentemente negligenciada: não existe esquema formal de certificação “ISO 25000” comparável à
ISO 9001 para sistemas de gestão da qualidade.
A série 25000 define modelos e processos de avaliação, não um “selo ISO” único e internacional para organizações.

O que pode existir (na prática de mercado) são certificações/declarações de conformidade de produto conduzidas por terceiros,
ancoradas em características do modelo ISO/IEC 25010 e em processos de avaliação alinhados à divisão 2504n.
Ou seja: não é “certificação ISO 25000” global, mas uso aplicado do framework por laboratórios e certificadores.
Para um panorama do ecossistema, veja o portal ISO 25000.

Integração com Gestão de Projetos e Ciclo de Vida

A principal diferença operacional entre as normas reside na abrangência temporal.
Enquanto a ISO/IEC 9126 se concentrava na avaliação de produtos finalizados, a série ISO/IEC 25000 oferece instrumentos para todas as fases do ciclo de vida:

  • Especificação de requisitos (divisão 2503n) — Permite definir critérios de qualidade mensuráveis desde o levantamento inicial, integrando-os à documentação de requisitos funcionais e não-funcionais.
  • Medição durante desenvolvimento (divisão 2502n) — Fornece métricas padronizadas para monitoramento contínuo, viabilizando práticas de qualidade integradas ao processo de construção.
  • Avaliação formal (divisão 2504n) — Define processos estruturados para avaliação de conformidade, aplicáveis tanto a entregas incrementais quanto a releases finais.

Em contextos ágeis, a ISO/IEC 25019:2023 (modelo de qualidade em uso, com 3 características e subcaracterísticas) ajuda a organizar a coleta de feedback real de usuários
em ciclos iterativos. Em paralelo, métricas de qualidade interna e externa sustentam decisões de refatoração, gestão de débito técnico e evolução contínua da arquitetura.

Síntese e Recomendações Finais

A ISO/IEC 9126 representou um marco na história da engenharia de software, estabelecendo pela primeira vez um vocabulário consensual para qualidade de produto.
Sua substituição pela série ISO/IEC 25000 reflete a maturação da disciplina e a necessidade de abordagens mais integradas.

Recomendações para 2026:

  • Modelo de qualidade de produto: ISO/IEC 25010:2023
  • Qualidade em uso: ISO/IEC 25019:2023
  • Métricas: Divisão ISO/IEC 2502n
  • Processos de avaliação: Divisão ISO/IEC 2504n
  • Guia/arquitetura da série: ISO/IEC 25000:2014
  • Uso de modelos (visão/estrutura): ISO/IEC 25002

A ISO/IEC 9126-1:2001 está retirada (Withdrawn) desde 13/09/2012. Utilize-a apenas em contextos históricos ou comparativos,
sempre identificando seu status de norma substituída/retirada.

A evolução de 9126 para 25000 não foi apenas uma renumeração. Tratou-se de uma ampliação conceitual que transformou a qualidade de software
de atributo avaliável pós-facto em disciplina integrada ao ciclo de vida de desenvolvimento.
Compreender essa transição é requisito para qualquer profissional que busca rigor técnico em projetos contemporâneos.

Referências

Documentos Normativos e Guias SQuaRE

Leituras Complementares (TI Especialistas)

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