Cloud Computing

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Estamos entrando na era da Cloud Corporation

publicado por Cezar Taurion

Estamos entrando na era da Cloud CorporationEm 2009 quando escrevi meu livro de Computação em Nuvem, o tema ainda era tratado como curiosidade. Hoje, cinco anos depois, cloud é irreversivel e em breve nem mais falaremos em cloud computing e sim apenas em computing, pois cloud será o nosso modelo mental de pensar na aquisição e uso de tecnologia. O seu impacto vai muito além de efeitos limitados de redução de custos no uso de infraestrutura de TI, mas vai afetar, aliás, já está transformando a propria industria de TI e os setores de TI das empresas. Está, na verdade, redesenhando a economia do setor de TI e seus modelos de negócio, tirando a industria de sua zona de conforto e a sacudindo de forma drástica. Produtos e serviços que antes geravam boas margens, como hardware e softwares vendidos no modelo on-premise, estão desaparecendo. Novos entrantes surgem e empresas já existentes estão se transformando para se posicionarem neste novo cenário. Um exemplo claro foi a recente venda da divisão de servidores de base Intel da IBM para a chinesa Lenovo.

É um contexto diferente do que vivenciamos nas ultimas décadas. Cloud permite uma interação direta entre os usuarios e as ofertas de serviços de tecnologia, sem passar por intermediários como o setor de TI. A função TI tradicional (cuidar de infraestrutura) perde sua importância e o que chamamos de setor de TI é obrigado a se reinventar, deslocando seu foco e capacitação para atuar como um advisor de tecnologia. O negócio por sua vez, torna-se mais e mais entranhado de tecnologia, em seus processos e produtos. As empresas, qualquer que seja seu setor, tornam-se digitais.

Os sintomas destas mudanças estão claras. Se olharmos o setor de hardware vemos que as margens reduzem-se a cada dia. As vendas de infraestrutura deslocam-se dos servidores físicos para servidores virtuais, disponibilizados em provedores de nuvens. No software, a maioria das empresas obtém sua rentabilidade dos contratos de manutenção, não de novas licenças. Além disso, observamos frequentemente o fenômeno do “excesso de capacidade” que é um software oferecer mais funcionalidades (e, naturalmente mais complexidade) que a maioria dos usuários precisa. Portanto, o modelo atual sinaliza claramente que está no seu limite e precisa ser redesenhado, para que a industria continue saudável.

A transformação da industria de TI passa por uma mudança radical em seus modelos de negócio. O modelo atual baseia-se no principio da venda de licenças de cópias de software que são instalados e operados nos computadores do próprio cliente. Tem algumas características interessantes: primeiro, supondo por exemplo, um software sendo usado por quatro a cinco anos, cerca de 70% dos gastos com licença e serviços correlacionados são efetuados no primeiro ano, na sua fase de implementação e integração. Portanto, grande parte dos gastos são feitos “up-front”, ou seja, antes que a empresa comece a obter os ganhos pretendidos com sua aquisição deste software. Este modelo implica que o fornecedor do software garante que seus investimentos em desenvolvimento, marketing e esforço de vendas, além da sua margem de lucro, é recompensado pela venda. Pelo grande esforço de colocar o produto em operação e pelas caracteristicas operacionais unicas, cria-se o fenômeno do aprisionamento, com os custos de troca tornando-se tão altos que inviabiliza sua idéia. Um exemplo, quantas empresas trocam de softwares de banco de dados?

Segunda característica é que a partir do momento em que o software está implementado, o risco de sua boa ou má utilização é de total responsabilidade do cliente. Na prática ele assume todo o risco, uma vez que se o software não atender suas necessidades, por ter sido mal selecionado ou por um operação defeituosa, a empresa usuária não se beneficia dos ganhos esperados. De modo pragmático, se o software está sendo bem usado ou não após sua compra, não afeta os resultados financeiros do fornecedor, pois a maior parte dos ganhos possiveis com a venda já entrou no seu caixa. O fornecedor, claro, tem todo o interesse que o software seja bem usado, até por questões de referências positivas, que facilitam vendas futuras a outros clientes. Mas não é de sua responsabilidade fazer com que a empresa mude seus processos para que o software seja plenamente aproveitado. Esta responsabilidade é do proprio usuário.

Este modelo funcionou por varias décadas. Mas, começou a entrar em colapso. Por que? Na minha opinião temos a crise econômica de 2008 que obrigou as empresas a serem mais seletivas e mais conservadoras em seus gastos. Onde pudessem diminuir custos, diminuiam. Menos gente para operar as empresas. Pressões em cima dos fornecedores para reduzirem seus preços…Também vimos o nascimento do fenomeno da consumerização com smartphones como iPhone e tablets como iPad e todo o mundo das apps, que mostraram que é perfeitamente possivel termos softwares de facil uso, intuitivos, com a complexidade escondida do seus usuários. Muitos deles grátis ou a preços muito menores que a industria de software habitualmente vinha praticando. E, claro, uma fator importante é o conceito de computação em nuvem, já explorado pelas empresas que nasceram na Internet e que viu-se que poderia ser aplicado a quaisquer outras empresas. Juntando-se tudo isso descobrimos que era possivel um novo modelo de negócios para aquisação e consumo de recursos de TI.
Cloud propõe a troca do Capex e seus investimentos upfront pelo gasto por consumo, ou Opex. Muito mais palatável a um cenário econômico problemático.

A mudança começou então por pressão do próprio mercado. Algumas empresas pioneiras mostraram que era viável usar o conceito, como a Salesforce e a Amazon. Cloud é um contexto diferente. O risco da aquisição se desloca do usuário para o fornecedor. Ele tem que manter o usuário satisfeito usando seu software dia após dia. Problemas de performance, sistema fora do ar…Tudo isso passa para a empresa que fornece os serviços de TI. Ela não está mais fora do problema, e sim passa a ser a responsavel.

Com isso, toda a cadeia de valor da industria se redesenha. Empresas que atuam como meras intermediárias perdem seu espaço. Com hardware concentrado nos provedores, as vendas destas maquinas passam a ser em grande volume, direto aos provedores, dispensando os intermediarios que vendiam pequenos volumes a empresas de medio a pequeno porte. As empresas usuarias deixam de comprar servidores fisicos e passam a comprar servidores virtuais. No software também ocorre a desintermediação. Com softwares rodando diretamente a partir dos data centers dos fornecedores, para que intermediários?

A industria tem que se redesenhar. Ao invés de capturar a maior parte do valor na venda, a receita passa a ser distribuida pelos anos em que o cliente usa o software. E quanto mais consumir, mais paga. O fornecedor passa a ter um interesse muito maior em fazer com que o usuario aproveite todo o potencial de funcionalidades do software. E adquira novas funcionalidades. Alem disso, o conceito de apps cria um novo patamar de preços. Torna-se dificil explicar a venda de um software de milhões de dólares. Claro que continuarão existindo casos especificos, mas na maioria dos exemplos veremos muita dificuldade em explicar ao CFO por que pagar dezenas de milhares de dólares por um software de e-mail se posso obte-lo praticamente de graça na nuvem? Porque pagar por uma planilha carissima se posso fazer o download de uma, muito mais intuitiva e simples de usar, por US$ 0,99? Esta tendência vai se espalhar pelos softwares corporativos. Porque pagar centenas de milhares de dólares por um ERP, CRM ou sistema de RH se posso optar por uma alternativa em nuvem, a um preço muito inferior? E sem necessidade de comprar toda uma parafernália de hardware e softwares (middleware) adicionais? A industria de software corporativa vai adotar alguns modelos já conhecidos dos apps, como o freemium, onde uma versão com menos funcionalidades é liberada gratuitamente, para chamar atenção funcionalidades adicionais serão pagas. É uma mudança radical nos modelos atuais de receita.

A TI dos proximos anos será uma TI baseada em cloud. Infraestrutura cada vez mais se deslocando para provedores de nuvem. Softwares intuitivos e de facil uso sem upgrades como as que vemos hoje, com ciclos de versões que mudam a cada 3 ou 4 anos que exigem quase que uma nova e cara reimplementação. As modificações passam a ser constantes e feitas nos proprios data centers dos fornecedores, passando, em alguns casos até desapercebida dos usuarios. A cadeia de valor muda radicalmente. Intermediarios que não agregam valor desaparecem. Por outro lado, surgem oportunidades novas, para agregadores de valor, cada vez mais concentrados em serviços e consultorias. Com tecnologias de desenvolvimento em nuvem e sem necessidade de investimentos em hardware, a industria de software corporativa tende a florescer em inovação. Veremos no mundo corporativo inovações que antes estavam restritas ao mundo das apps orientadas aos usuarios finais.

As vendas passam a ser feitas não apenas para os CIOs, que perdem a exclusividade da escolha e entrega da tecnologia à empresa, mas para os usuários diretamente. Os CIOs e sua equipe tornam-se advisors e brokers, gerenciando processos de escolha de soluções em nuvem. É um outro jogo.

Esta transformação, ou seja, o conceito de uma cloud corporation onde TI é baseada em cloud já está começando a ocorrer. Mas, não é um processo big bang. Acredito que possamos adotar a famosa regra de 10/10 para tecnologias de ruptura. 10/10 significa cerca de dez anos para desenvolver o conjunto de tecnlogias em todos seus aspectos, que inclui tecnologias diretas como as que melhoram segurança neste novo cenario e indiretas, como maior capacidade de banda larga, e outros dez anos para serem implementadas, aceitas, institucionalizadas e exploradas em sua potencialidade. Quando então torna-se o modelo mental de pensar tecnologia. Estamos no inicio da curva de aprendizado. Mas movimentos de empresas gigantes do mundo da TI como a IBM, investindo bilhões de dólares para adquirir empresas como SoftLayer e Cloudant, mudando seu porfolio de software para operar em nuvem e concentrando seu imenso capital intelectual no aprimoramento do conceitos e das tecnologias que o envolvem, mostram que é uma cartada sem volta. A corporação operando em nuvem vai se tornar realidade. Quando? Um chute: no final desta ou inicio da próxima década…

[Crédito da Imagem: Cloud Corporation – ShutterStock]

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Autor

Cezar Taurion é head de Digital Transformation da Kick Ventures e autor de nove livros sobre Transformação Digital, Inovação, Open Source, Cloud Computing e Big Data.

Cezar Taurion

Comentários

3 Comments

  • Interessante que em 2009 foi quando comprei meu primeiro livro sobre Cloud, posteriormente li outros. Era algo novo e percebia que poucos profissionais da área se interessavam. Estamos em 2014, 5 anos se passaram e agora parece que o Cloud é a onda do momento, tenho visto em vários sites que acompanho o crescimento de artigos sobre Cloud. Eu apenas não acredito que dure 10 anos desenvolver o conjunto de tecnologias, penso que será em menos tempo. Hoje utilizo na empresa servidores cloud, o salesforce que você citou, entre outros tantos serviços na nuvem, realmente segurança e velocidade não é o forte de alguns, vamos esperar o futuro. Parabéns pelo artigo.

  • Cezar, tive acesso ao seu primeiro livro ao abordar os temas Cloud Computing e Segurança na Virtualização de Servidores para definir os rumos do meu trabalho de conclusão de curso . Excelente material que se mostra atual mesmo depois de aproximadamente cinco anos. O peso da novidade a princípio gerou grande desconfiança impactando a não adoção imediata desta forma de pensar TI e sua respectiva tecnologia. Hoje a realidade está muito próxima do descrito em seu artigo e acredito que antes mesmo do 10/10 veremos concretizadas estas etapas e outras que servirão de suporte a novas possibilidades de uso. Hoje percebo que o conceito híbrido é mais facilmente aceito, contudo, por questões financeiras muito em breve este comportamento deve mudar. Quanto maior a economia de recursos melhores são as perspectivas de lucro e num mundo capitalista o lucro direciona os investimentos. Parabéns pelo artigo. Se por um lado a propaganda é a “alma” do negócio: segurança, praticidade, economia, lucro e competitividade moldam o “corpo” tornando-o possível. Trata-se apenas de ser competente, acreditar no que se faz e fazê-lo com “intensidade”, os resultados são apenas consequência.

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