Desenvolvimento

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Colocamos grotescamente “social” na frente do que fazemos

publicado por José Luiz Barbosa

Me parece claro que não vamos resolver a desvantagem da grande deficiente distribuição de rendas com o Capitalismo de Estado do Brasil, utilizando exatamente a mesma ferramenta de base do capitalismo. Ian Bremmer, um cientista político, sustenta que o Brasil e Índia tem modelos híbridos, a meio caminho entre o capitalismo de livre mercado americano e capitalismo totalmente de Estado como o Chinês. No entanto, o Estado brasileiro não está convencido de que o mercado livre é o melhor para o Brasil. Com a intervenção do Estado brasileiro, ainda assistencialista, proporcionando extremos “serviços sociais”, como o da Bolsa Família para a Base da Pirâmide (BOP), uma boa história de inovação, como Bamboosero, nos lembra que os chamados peritos políticos e economistas nem sempre escolhem o significado certo para termos: idéias revolucionárias, tecnologias disruptivas e inovação social, como soluções eficientes para problemas da sociedade.  Tornamo-nos especialistas através de um treinamento extensivo em como VEMOS O MUNDO de UMA ÚNICA forma particular. Thomas Kuhn, chamou a estes “modos de ver”, paradigmas. Os especialistas não optam por ver o mundo de uma maneira particular. Especialização é valioso, mas também vem com um custo em termos de compromissos existentes para velhas idéias.

Também não podemos continuar a colocar “social” na frente do que fazemos e esperar que, por exemplo, o sector empresarial de capitais vai mudar sua atitude ou irá adotar uma posição moral mais elevada através da Responsabilidade Social Empresarial. Será que alguém pode me dizer como “moral e ética” no sistema atual nos levariam a uma mudança de paradigma.

“Negócio social” não é caridade

Termos como “empreendedor social”, “empresa social”, “capital social”, “responsabilidade social”, e muitos outros são freqüentemente usados em literatura devotada a soluções para problemas da pobreza. No entanto, esses termos são aplicados de diferentes maneiras por jornalistas, pesquisadores e escritores. Mas, indiferente se estes conceitos são ligados as organizações “sem fins lucrativos do mundo” ou “com fins lucrativos do mundo”, eles não tem nada a ver com o conceito de “negócio social” como estipulado por Muhammad Yunus.

“O negócio social é um modelo de negócio inovador que promove a idéia de fazer negócios a fim de resolver um problema social, e não para maximizar o lucro…este complemento para o capitalismo tradicional realmente pode atender às necessidades mais prementes da humanidade, especialmente a pobreza. Cada negócio social gera emprego, boas condições de trabalho e, é claro, trata de um mal social específica, tais como falta de educação, saúde e boa nutrição…No negócio social, o investidor recebe seu dinheiro de     volta, o investimento, ao longo do tempo, mas nunca recebe dividendos para além desse montante.”

Em “The Power of Unreasonable People”, escrito por John Elkington e Pamela Hartigan, os “empreendedores sociais” podem ser divididos em três grupos. Primeiro, há os totalmente dependentes de até mesmo o Estado, que atuam em áreas em que é praticamente impossível gerar recursos próprios. Há o segundo grupo que são os híbridos, que recebem doações e também são capazes de gerar alguma receita. E finalmente os terceiros são os que não precisam de doações e têm, em muitos aspectos, funcionamento semelhante ao das empresas tradicionais. Este último poderia vir a ser considerado com empreendedores do “negócio social”.

O que devemos perguntar para poder entender
Algumas organizações foram destacadas numa reportagem sobre “empreendedorismo social” e “negócios sociais” da edição de Dezembro 2009/Janeiro 2010 da Revista EXAME PME. No entanto nenhum esclarecimento foi feito quanto aos termos usados, deixando para o leitor decifrar o que se está descrevendo. Vou aqui levantar alguns exemplos citados e analisá-los, sem procurar desmerecer o valor “social” mas levando em consideração o “social” e ao mesmo tempo o “negócio”.

O primeiro caso é os ‘Doutores da Alegria’, que leva palhaços a hospitais para espantar a melancolia de crianças internadas, “que serve para definir um dos muitos desafios dessa entidade sem fins lucrativos.” Valor social é grande mas de “negócio social” não tem nada. Poderia até muito bem ser uma empresa qualquer de prestações de serviços com fins lucrativos. “Em seus 18 anos de existência, os Doutores da Alegria sempre trabalharam com palhaços profissionais e contratados. No início, não era claro que perspectivas eles encontrariam ali. Hoje, um programa de treinamento e um sistema de remuneração por mérito ajudam a mantê-los comprometidos com as metas de longo prazo da entidade”. “Os ‘Doutores da Alegria’ além dos hospitais dão palestras de motivação que já são feitas em empresas. Esse tipo de atuação é muito importante para trazer recursos — 30% dos 5,5 milhões de reais necessários para as 75 000 visitas feitas por ano a hospitais vêm de receitas próprias.” É o resto da receita caridade de organizações? “Negócio social” é auto-sustentável e não conta com caridade. Perguntas como: Como os fundadores se beneficiam das atividades do ‘Doutores da Alegria’? Quem são os outros economicamente beneficiados das atividades dos ‘Doutores da Alegria’? Eu acho que nenhuma das respostas venham a ser as pessoas pobres das chamadas “Comunidades”.

“Não depender só da boa vontade alheia e de doações que nunca se sabe se chegarão mesmo é o objetivo do ex-entregador de jornais José Júnior, de 41 anos. Um dos fundadores do AfroReggae, que promove cursos de música, teatro e dança em favelas cariocas”. Neste segundo caso a entidade tem um orçamento anual de cerca de 10 milhões de reais. “Metade do dinheiro já vem de receitas próprias. O resto é bancado por três grandes empresas e pelo governo do Rio de Janeiro.” Isso pode até ser uma empresa social e ele um empreendedor social, mas tenho aqui as minhas dúvidas. Entretanto, um “negócio social” é auto-sustentável e não bancado. Perguntas como: Como o fundador se beneficiam das atividades do AfroReggae? Quem são os outros economicamente beneficiados das atividades do AfroReggae? E porque o Estado vê esse tipo de instituição como “sem fins lucrativos” quando deveriam ser “com fins lucrativos” eu não entendo. Já que “uma boa parte das receitas vem de negócios diretamente ligados aos projetos da entidade — venda de ingressos de shows e CDs das bandas apoiadas e publicidade de programas em rádio e TV. O dinheiro vem ainda do licenciamento da marca para a fabricante de roupas Hering, de cursos de percussão e teatro para grupos fora da periferia, da venda de livros e até de consultoria para empresas que procuraram a entidade a fim de entender melhor o comportamento de consumidores de baixa renda.” Para mim isso é uma industria e um negócio como qualquer outro.

“Criado em 2004 por Mônica Barroso Keel e Cecília Zanotti, ambas de 34 anos e formadas em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas, o ‘Projeto Bagagem’ organiza roteiros turísticos que ajudam a gerar renda para a população das pequenas comunidades que moram nas regiões visitadas. São feitas viagens para destinos como Amazônia, Chapada Diamantina e comunidades caiçaras do Paraná – “Tínhamos de agir como uma concorrente no setor e traçar uma estratégia comercial para vender mais.”  Para mim isto parece um negócio de turismo como qualquer outro. Colocar a palavra social na frente de empreendedoras não as qualificam para resolverem problemas de pobreza local. Compare este empreendimento com que o caso que descrevi. Em qual dessas duas histórias se traz mais benefícios a outros do que para si mesmo?

Eu acredito que o mundo empresarial poderia aprender muito sobre valores sociais dos  empreendedores sociais, “sem fins lucrativos do mundo”, se criarmos uma maneira cooperativa usando ‘open design field model’ e ‘win-win-win-win’ (o último win é a sociedade como um todo que ganha). Mas, de qualquer maneira, com base no que ainda vemos no Brasil, me parece que precisamos ainda aplicar as ferramentas atuais do assistencialismo. O capital, Bolsa Família, deveria ser simplesmente uma estrutura de incentivo para que as pessoas achem uma melhor, e sustentável, solução de resolver os seus problemas os tirando de uma vez por toda do estado de carência. A pobreza não foi inventada pelo pobre, este também não nasceu querendo ser pobre, mas sim imposta a este por estruturas da nossa sociedade.

Pois, ‘Dê a uma pessoa um peixe, ele/ela comem por um dia. Ensina a pescar, e a pessoa alimenta a sua família para uma vida. Ensina essa pessoa a fazer instrumentos de pesca, e ele/ela cria trabalho para os seus vizinhos. Compre seus produtos, ele/ela faz o negócio crescer e prospera’ garantindo que as próximas gerações não precisarão viver na pobreza.

Acorda gente e Bom Dia Brasil!
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Autor

New Business Development, Creative Leadership, Entrepreneurship and "Social Business" - http://www.cvlink.com.br/site/JLBarbosa Especialidades: Liderança Criativa e estruturamento de organização com o propósito de desenvolver capacidades e conhecimento. Os benefícios que proporcionei a outros, em meu trabalho, foram: • descobertas de novos caminhos para fazer dar certo a construção do futuro da organização, • realizações concretas segundo metas de negócios, • ações focadas e evolutivas, • amadurecimento e crescimento de uma equipe, • despertar, na equipe, capacidades que estavam guardadas Área de atuação: desenvolvimento de novos negócios, comunicação institucional, inovação social e desenvolvimento sustentável.

José Luiz Barbosa

Comentários

5 Comments

  • Exelente artigo! sempre me pergunto também, como que organizações sem fins lucrativos que lucram sim, ainda são chamados “sem fins lucrativos”?

    • Obrigado Jézer,

      Na verdade existe até os “sem fins lucrativos” que geram lucros mas não são repassados para os membros da comunidade, o que aconteceria num modelo tranaparente de desenvolvimento sustentável de “negócio social”.

      Bom fim-de-semana

  • Gostei muito do seu artigo, compartilho com seu pensamento, a interpretação de pobreza é tratada superficialmente pela sociedade, como um bando de gente sem capacidade de aprender e ter um futuro promissor e próprio.

    Vejo que o aspecto social é gerar oportunidades, sabemos que muitas historias de sucesso saem de guetos, lá existem gênios, pessoas de uma inteligência ímpar, mas que precisam observadores com real compromisso em oferecer oportunidades.

    • Caro Almir,

      Muito obrigado pelo seu comentário. Divido e multiplico as suas palavras.

      Grande abraço

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