Qualidade de software em 2026: ISO/IEC 25010, ISO 25000 e o legado da ISO 9126

por Augusto Vespermann
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Qualidade de software é um dos termos mais citados — e menos formalizados — da área de TI. Reuniões de projeto, revisões de código, auditorias técnicas: a palavra aparece em todos esses contextos, mas o que ela significa exatamente varia muito de time para time.

Para resolver essa ambiguidade, a ISO criou normas específicas. A mais conhecida no Brasil é a ISO/IEC 9126, formalmente encerrada mas ainda abundante em TCCs, concursos públicos e especificações de sistemas legados. A sucessora oficial é a família ISO/IEC 25000 (SQuaRE), cujo modelo de qualidade de produto está definido na ISO/IEC 25010.

Este artigo explica as três normas, as diferenças entre elas, o que mudou de 2001 a 2023 e como aplicar esses conceitos em projetos reais de TI.

O que é qualidade de software em 2026

Qualidade de software é o grau em que um sistema, componente ou processo atende aos requisitos especificados e às necessidades ou expectativas do usuário. A definição é da própria família ISO/IEC 25000.

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Na prática, qualidade tem duas dimensões que não devem ser confundidas:

  • Qualidade de produto: características do software em si — funcionalidade, desempenho, segurança, facilidade de manutenção.
  • Qualidade em uso: o que o usuário experimenta ao usar o produto em um contexto real — eficácia, eficiência, satisfação, ausência de riscos.

Um sistema pode ter código-fonte bem estruturado (boa qualidade interna) mas ser lento em produção (baixa qualidade de desempenho externa). As normas ISO distinguem esses níveis com precisão.

O que foi a ISO/IEC 9126 e por que ela ainda aparece em buscas

A ISO/IEC 9126 foi a primeira norma internacional a definir formalmente um modelo de qualidade de produto de software. Publicada originalmente em 1991 e revisada entre 2001 e 2003, ela foi estruturada em quatro partes:

  • Parte 1: Modelo de qualidade
  • Parte 2: Métricas externas
  • Parte 3: Métricas internas
  • Parte 4: Métricas de qualidade em uso

O modelo de qualidade da Parte 1 definiu seis características principais:

Característica O que avalia
Funcionalidade Capacidade do software de prover funções que satisfazem requisitos explícitos e implícitos
Confiabilidade Capacidade de manter o nível de desempenho em condições especificadas durante um período de tempo
Usabilidade Esforço necessário para uso e avaliação individual desse uso
Eficiência Relação entre nível de desempenho e quantidade de recursos usados
Manutenibilidade Esforço necessário para modificar o software
Portabilidade Capacidade de ser transferido de um ambiente para outro

No Brasil, a norma foi adaptada pela ABNT como NBR ISO/IEC 9126-1:2003. Antes disso, havia a NBR 13596:1996, uma versão anterior da adaptação brasileira — que é a razão de muitos documentos e concursos ainda referenciarem o número 13596.

Por que a ISO 9126 ainda aparece? Ela foi formalmente encerrada quando a família ISO/IEC 25000 a substituiu (2011–2014), mas continua presente em editais de concurso público, modelos de documento de especificação, TCCs e sistemas desenvolvidos antes de 2015. Conhecer a ISO 9126 é importante para lidar com esse legado.

Para uma análise detalhada da ISO 9126 e da NBR 13596, veja a análise histórica da ISO 9126 no TI Especialistas.

O que mudou com a família ISO/IEC 25000 (SQuaRE)

A família ISO/IEC 25000, conhecida como SQuaRE (System and Software Quality Requirements and Evaluation), foi criada para substituir e expandir a ISO/IEC 9126 e também a ISO/IEC 14598 (avaliação de produto de software).

A série é organizada em divisões temáticas:

Divisão Tema Normas principais
ISO/IEC 2500n Gestão da qualidade ISO/IEC 25000, 25001
ISO/IEC 2501n Modelo de qualidade ISO/IEC 25010, 25012
ISO/IEC 2502n Medição de qualidade ISO/IEC 25020, 25021, 25022, 25023, 25024
ISO/IEC 2503n Requisitos de qualidade ISO/IEC 25030
ISO/IEC 2504n Avaliação de qualidade ISO/IEC 25040, 25041, 25045

A ISO/IEC 25000:2014 funciona como o “guia mestre” que descreve os termos, definições e a arquitetura do sistema SQuaRE. Para uma visão completa dessa família, leia o artigo sobre ISO 25000 e qualidade de software no TI Especialistas.

ISO/IEC 25010: o modelo de qualidade de produto de software

A ISO/IEC 25010 é a parte da família SQuaRE que define o modelo de qualidade de produto de software e de sistemas. É o sucessor direto da Parte 1 da ISO/IEC 9126.

A primeira edição foi publicada em 2011. A segunda edição (2023) revisou o modelo para refletir as mudanças no desenvolvimento de software na última década, incluindo ambientes em nuvem, sistemas embarcados e software como serviço (SaaS).

O modelo de qualidade de produto da ISO/IEC 25010 (edição 2011, amplamente adotada) define oito características:

Característica Descrição Sub-características principais
Adequação funcional O software fornece funções que atendem às necessidades declaradas e implícitas Completude, correção, pertinência funcional
Eficiência de desempenho Desempenho em relação aos recursos utilizados em condições especificadas Comportamento temporal, utilização de recursos, capacidade
Compatibilidade Capacidade de trocar informações e/ou coexistir com outros sistemas/componentes Coexistência, interoperabilidade
Usabilidade Usuários conseguem usar o sistema com eficácia, eficiência e satisfação Reconhecibilidade, aprendizabilidade, operabilidade, proteção contra erros
Confiabilidade O sistema desempenha funções especificadas quando necessário Maturidade, disponibilidade, tolerância a falhas, recuperabilidade
Segurança Proteção de informações e dados contra acesso não autorizado Confidencialidade, integridade, não-repúdio, responsabilização, autenticidade
Manutenibilidade Grau de eficácia e eficiência com que o software pode ser modificado Modularidade, reutilização, analisabilidade, modificabilidade, testabilidade
Portabilidade Capacidade de ser transferido de um ambiente para outro Adaptabilidade, instalabilidade, substituibilidade
Sobre a edição 2023: A ISO/IEC 25010:2023 revisou sub-características e a estrutura do modelo de qualidade em uso. Para projetos novos, consulte a versão vigente diretamente no catálogo ISO. Para fins de concurso e referência geral, o modelo de 2011 ainda é amplamente utilizado.

Diferença entre ISO 9126, ISO 25000 e ISO 25010

Aspecto ISO/IEC 9126 ISO/IEC 25000 (SQuaRE) ISO/IEC 25010
O que é Norma única (4 partes) sobre qualidade de produto Família de normas (série completa) Parte do SQuaRE: modelo de qualidade
Publicação 1991 / revisão 2001–2003 2005–2014 (publicações principais) 2011 / revisão 2023
Status Retirada / substituída Vigente (série) Vigente (modelo de qualidade)
Características do modelo 6 características N/A (framework) 8 características (2011)
Escopo Software de produto Software e sistemas Software e sistemas
Relação Predecessor Família sucessora Substituto direto da ISO 9126 Part 1
Erro comum: Tratar ISO 25000 e ISO 25010 como sinônimos. A ISO/IEC 25000 é a família inteira (dezenas de normas). A ISO/IEC 25010 é apenas a parte que define o modelo de qualidade de produto — o equivalente moderno da Parte 1 da ISO 9126.

Para a comparação detalhada entre as duas normas, consulte o artigo comparação entre ISO 9126 e ISO 25000.

Características de qualidade: o que cada uma significa na prática

Adequação funcional

O software faz o que precisa fazer? Essa característica avalia se todas as funções prometidas existem (completude), se produzem resultados corretos (correção) e se são relevantes para o problema do usuário (pertinência). Um sistema com funções corretas mas desnecessárias ainda falha em pertinência funcional.

Eficiência de desempenho

Velocidade de resposta, consumo de memória, CPU e largura de banda estão dentro do aceitável? Sistemas lentos podem ser tecnicamente corretos e ainda assim inutilizáveis. A eficiência de desempenho envolve tempo de resposta (comportamento temporal), uso de memória e processador (utilização de recursos) e limites do sistema sob carga máxima (capacidade).

Compatibilidade

O software convive bem com outros sistemas no mesmo ambiente (coexistência) e troca dados corretamente com eles (interoperabilidade)? Integrações via API, exportações em formatos padrão e ausência de conflitos em ambiente compartilhado são indicadores práticos dessa característica.

Usabilidade

O usuário consegue entender para que serve o software, aprender a usá-lo, operá-lo com eficiência e cometer poucos erros? Usabilidade não é só “interface bonita” — inclui prevenção de erros do usuário e acessibilidade. Um formulário que impede o envio sem explicar por quê falha em usabilidade.

Confiabilidade

O sistema está disponível quando precisa estar? Recupera-se de falhas sem perda de dados? Tolera condições adversas sem travar? A confiabilidade é crítica em sistemas de missão crítica, mas também relevante em e-commerce (queda durante Black Friday) e sistemas de saúde.

Segurança

Dados confidenciais são protegidos? Operações são registradas para auditoria? Identidades são autenticadas corretamente? A segurança na ISO/IEC 25010 cobre confidencialidade, integridade, não-repúdio, responsabilização e autenticidade — não apenas controle de acesso.

Manutenibilidade

Quanto esforço é necessário para corrigir um bug, adicionar uma feature ou entender o código existente? Software com alta manutenibilidade tem módulos coesos, dependências claras, testes automatizados e documentação atualizada. Baixa manutenibilidade é a principal causa de projetos de reescrita.

Portabilidade

O sistema pode ser implantado em diferentes sistemas operacionais, nuvens ou ambientes com esforço mínimo? A portabilidade inclui adaptabilidade (sem grandes modificações para funcionar em novo ambiente), instalabilidade (facilidade de instalação) e substituibilidade (pode substituir outro sistema no mesmo ambiente).

Como aplicar qualidade de software em projetos reais

A norma define o quê medir — mas não o como. Na prática, a aplicação acontece em três momentos:

1. Na especificação de requisitos

Transforme características de qualidade em requisitos não-funcionais mensuráveis. Em vez de “o sistema deve ser rápido”, escreva “o sistema deve responder a 95% das consultas em menos de 1,5 segundos sob carga de 200 usuários simultâneos”. Para boas práticas nessa etapa, leia o artigo sobre análise e levantamento de requisitos.

2. No desenvolvimento e arquitetura

Cada decisão arquitetural afeta múltiplas características. Microsserviços melhoram portabilidade e manutenibilidade, mas podem reduzir desempenho por overhead de rede. Cache melhora eficiência de desempenho mas aumenta complexidade de manutenção. Use o modelo de qualidade para mapear trade-offs conscientemente.

3. Na avaliação e testes

Defina métricas para cada característica relevante e meça. A família ISO/IEC 2502n fornece exemplos de métricas. Ferramentas como SonarQube (manutenibilidade), k6/Gatling (desempenho) e OWASP ZAP (segurança) cobrem partes do modelo.

Relação com testes, requisitos, arquitetura e governança

O modelo de qualidade da ISO/IEC 25010 se conecta diretamente a práticas estabelecidas:

  • Testes: Testes funcionais cobrem adequação funcional. Testes de carga cobrem eficiência de desempenho. Testes de penetração cobrem segurança. Testes de usabilidade cobrem usabilidade. O modelo é um mapa para planejar a cobertura de testes.
  • Requisitos: Características de qualidade devem virar critérios de aceite mensuráveis na especificação. User stories com critérios de aceite de desempenho e segurança são mais difíceis de esquecer na entrega.
  • Arquitetura: Decisões de arquitetura têm impacto direto em confiabilidade (redundância), manutenibilidade (separação de responsabilidades), portabilidade (containerização) e eficiência (caching, balanceamento de carga).
  • Governança: Em licitações e contratos públicos, a referência à ISO/IEC 9126 ou ISO/IEC 25010 cria uma linguagem comum para especificar e verificar qualidade de software contratado.

Para contexto histórico da evolução das práticas de desenvolvimento, leia o artigo sobre evolução do software.

Erros comuns ao usar normas de qualidade

  1. Confundir ISO 25000 com ISO 25010: A primeira é a família completa, a segunda é a norma do modelo de qualidade. Citar “ISO 25000” quando se quer dizer o modelo de qualidade está tecnicamente impreciso.
  2. Usar ISO 9126 como se fosse vigente: A norma foi encerrada. Para projetos novos, use ISO/IEC 25010. Para documentos legados, mencione explicitamente que é a versão anterior.
  3. Listar características sem critérios mensuráveis: “O sistema deve ter boa usabilidade” não é um requisito — é uma intenção. Requisitos de qualidade precisam de métricas e limiares.
  4. Ignorar a qualidade em uso: O modelo de produto não é suficiente. Um sistema pode ser internamente excelente e ainda assim não atender às necessidades do usuário no contexto real de uso.
  5. Tratar todas as características com o mesmo peso: Para um sistema de pagamentos, segurança e confiabilidade têm prioridade. Para um app de produtividade pessoal, usabilidade pode ser o fator decisivo. A norma não define pesos — isso é decisão do projeto.

Checklist prático para equipes de TI

  • Identificar quais características de qualidade são prioritárias para o projeto
  • Traduzir cada característica prioritária em requisito não-funcional mensurável
  • Incluir critérios de aceite de qualidade nas user stories e especificações
  • Mapear testes para cobrir cada característica relevante
  • Definir ferramentas de medição antes do desenvolvimento (não depois)
  • Registrar decisões arquiteturais e seus impactos nas características de qualidade
  • Revisar o modelo de qualidade nas retrospectivas de sprint
  • Usar a terminologia correta: ISO 25010 para projetos novos, ISO 9126 apenas para referência histórica

FAQ

ISO 9126 ainda vale para concursos públicos?

Sim. Muitas bancas de concurso público (especialmente para cargos de TI em órgãos federais) ainda cobram ISO 9126 nas provas, por influência de editais antigos e material didático desatualizado. Conhecer as seis características da ISO 9126 e suas sub-características continua sendo necessário para essas provas.

ISO 25010 substitui completamente a ISO 9126?

Sim, formalmente. A ISO/IEC 25010 é o substituto da Parte 1 da ISO/IEC 9126 (modelo de qualidade). A família SQuaRE como um todo substitui tanto a ISO/IEC 9126 completa quanto a ISO/IEC 14598. A ISO 9126 foi retirada (withdrawn) pelo ISO.

Preciso comprar a norma ISO 25010 para usá-la?

Para uso comercial formal, sim — as normas ISO são documentos pagos disponíveis no site ISO.org e, no Brasil, pela ABNT. Para fins educacionais e de referência, o conteúdo do modelo de qualidade é amplamente documentado em publicações acadêmicas, livros e artigos técnicos de livre acesso.

Qual a diferença entre NBR 13596 e ISO 9126?

A NBR 13596:1996 foi a primeira adaptação brasileira (ABNT) da ISO/IEC 9126, baseada na versão original de 1991. Quando a ISO revisou a norma entre 2001 e 2003 (publicando quatro partes), a ABNT fez uma nova adaptação — a ABNT NBR ISO/IEC 9126-1:2003. O número 13596 refere-se especificamente à versão de 1996.

SQuaRE é um acrônimo de quê?

SQuaRE significa System and Software Quality Requirements and Evaluation (Requisitos e Avaliação de Qualidade de Sistema e Software). O nome reflete o escopo expandido em relação à ISO 9126, que cobria apenas produto de software.

Leitura histórica no TI Especialistas

O TI Especialistas possui um acervo com análises detalhadas sobre essas normas, publicadas em diferentes períodos:

Fontes consultadas

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