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A tomada de consciência tecnológica

publicado por Carlos Nepomuceno

A tomada de consciência tecnológicaA ideia do filósofo Martin Heidegger do ser autêntico e inautêntico é relevante nesse momento.

Para ele, assumir nossa finitude/morte, nos faz ver o mundo de forma distinta.

Nos faz perceber que os condicionamentos que nos submetemos são efêmeros diante da perspectiva da morte e nos torna seres mais autênticos, quando procuramos nossa própria voz.

Nos faz, assim, sair de uma vida inautêntica para uma mais autêntica, procurando desenvolver a nossa capacidade de ser e estar no mundo, que não é dada pelo fato de termos nascido, mas é um esforço que precisa ser feito, uma potencialidade em aberto que pode, ou não, ser vivida e desenvolvida.

Podemos ser, não somos!

A ideia da tomada de consciência humana diante do seu tempo, da história, de sua angústia, situação social, etc aparece ainda em diversos filósofos contemporâneos, começando por Marx, que exerce ainda forte influência no pensamento brasileiro e em toda América Latina.

Não são poucos filósofos também que estabelecem, cada um a seu tempo, os condicionamentos da espécie humana, uns falam da prisão da linguagem, da história, da economia, que nos amarram.

Para eles, não se pode compreender o ser humano sem que nos coloquemos nesse entorno condicionante.

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Tomar consciência seria, então, sair de um estado de letargia que nos colocaram e acordar para uma dada realidade, que causa sofrimento, através da tirada da venda.

O filme Matrix, sob este ponto de vista, é bem nessa direção da tomada da consciência e bastante Hideggareano.

Tais tomadas de consciência, entretanto, não explicam propriamente os movimentos de Junho de 2013 no Brasil, pois foi algo que não passou por um processo individual, mas coletivo e rápido de inação para a ação, com um novo conjunto de demandas inusitadas contra as organizações de plantão. O que ocorreu aqui foi um fenômeno muito particular e específico, que podemos chamar de tomada de consciência tecnológica e não ideológica.

As engrenagens de poder da sociedade (qualquer uma) estabelecem organizações e narrativas (com taxas variáveis de falsidade) que vão, ao longo do tempo, aprendendo a controlar as ideias e dominar, assim, os ambientes cognitivos, conseguindo estabelecer a aceitação de uma alta taxa de falsa narrativa aceita pelo conjunto da sociedade.

O controle das ideias vai, se usarmos as teorias de Heidegger criando cada vez mais um conjunto de cidadãos “desautênticos”, pois vai ficando cada vez mais invisível a possibilidade de perceber que nossas consciência é a do outro, criado por alguém em nós.

Um conjunto de alegorias é criado e nos leva a viver um mundo Matrixiano sem que tenhamos a possibilidade da pílula vermelha.

A filosofia tem dois tipos de abordagem nessa direção:

  • A dos filósofos aéreos – que nos vêem como almas sem corpo;
  • E os terrestres – que colocam corpo na alma e inclui aí todos os condicionamentos terrenos.

Os terrestres são capazes de nos colocar elementos condicionantes, tal como Marx a economia, a luta de classes. Como Kant, o tempo e o lugar, por exemplo. Ou Wittgenstein que nos lembra da prisão da linguagem.

Não seria estranho acrescentar, por exemplo, as ideias de Wittgenstein que fala do aprisionamento da linguagem, de que esta linguagem não acontece sem um suporte tecnológico.

A voz precisa da boca, assim como a escrita do papel ou da tela.

Assim, o ambiente da linguagem da qual somos prisioneiros não pode ser visto como estático, se modifica por mudanças não condicionadas pelas organizações que exercem o poder, pois a massificação de uma dada tecnologia cognitiva nova é feita por fora da estrutura vigente. Foi assim com o alfabeto na Grécia, com o papel impresso no fim da Idade Média e agora com a Internet a partir do final do século passado.

E isso é a marca de uma Revolução Cognitiva que é tão difícil de ser compreendia pelo modelo de pensamento que temos até aqui, pois o fator tecnológico cognitivo e sua ruptura não entrou ainda no radar dos filósofos, com exceção de Pierre Lévy.

Toda a estrutura de poder, assim, é baseada no domínio das narrativas da sociedade, que usam a linguagem do seu tempo e, por sua vez, uma dada tecnologia que a empacota e condiciona nosso modus operandi.

Uma revolta tecnológica como ocorreu no Brasil é uma mudança que marca a chegada, massificação, uso intenso e consequências de novas tecnologias cognitivas que vêm de fora das organizações de plantão e permitem que novas narrativas apareçam, questionando de fora para dentro, sem ainda um projeto ideológico, mas tecnológico.

A ideologia vai sendo construída depois, como foi com o conjunto de filósofos que construiu o que se chamou a Filosofia Moderna, a partir de 1450, que pela ordem priorizou a razão x fé e depois problematizou essa razão, criando a subjetividade e relacionando o homem a seu tempo, bases para a queda da Bastilha a criação da democracia que temos hoje. O que está a se dizer aqui em palavras claras é que foi o papel impresso que permitiu a Revolução Francesa, a partir do livre-arbítrio de vários pensadores que ocuparam o novo espaço entre a narrativa oficial-falsa e intoxicada e a nova narrativa mais autêntica que ele permitiu.

Cria-se um novo condicionamento e uma nova demanda por determinado tipo de autoridades que não são mais aquelas que estão aí. O abismo entre uma e outras são enormes!

A falsa narrativa das falsas autoridades que aprenderam a usar o ambiente cognitivo passado se vêem nuas diante de uma nova enxurrada de narrativas não comprometidas com o aparato de dominação social. São milhares de novos filósofos-tecnológicos que viram a luz, pois se descondicionaram do modelo passado, pelo uso intenso de um novo aparato tecnológico. Se recondicionaram cognitiva e afetivamente falando.

Isso é, entretanto, uma parte, mas não o todo.

A nova geração que se utiliza desse novo ambiente técnico-linguístico  estabelece afetivamente uma nova forma de respeito a uma dada representação e à autoridade, baseada em um novo tipo de mérito, pois passa a admirar quem tem algo para dizer e não mais a imagem que o ambiente cognitivo em decadência consegue estabelecer.

É como se pudesse de novo ver o fogo além da fumaça e surge o bordão que diz tudo em poucas palavras:
“Você não me representa!”.

Isso não me representa

Habitua-se, assim, no uso do novo ambiente tecnológico (com destaque o Facebook) com um novo modelo de respeito por um novo modelo de autoridade, condicionada pela prática do uso do novo ambiente tecnológico e não pela tomada de consciência ideológica.

É uma característica da guinada tecnológica. Nada impede que em outros momentos vá haver a tomada de consciência ideológica ou existencial, só que agora não é este o caso. É a novidade que precisamos lidar: uma revolução cognitiva em pleno século XXI.

É uma tomada de consciência tecnológica, que prepara um novo modelo de governança da espécie, que os novos ambientes cognitivos permitem e são necessários para estabelecer um equilíbrio entre tamanho da espécie e governança.

Artigo Publicado originalmente em nepo.com.br

[Crédito da Imagem: Consciência – ShutterStock]

 

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Autor

Carlos Nepomuceno é Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense/IBICT Instituto Brasileiro em Ciência e Tecnologia com a tese “Macro-crises da Informação”. Jornalista e consultor especializado em estratégia no mundo Digital, desde 1995 com foco no apoio à sociedade a lidar melhor com essa passagem cultural, reduzindo riscos e ampliando oportunidades. Atualmente, se dedica a implantação de projetos de “Gestão de Desintermediação”, que é uma metodologia criada integrada para preparar pessoas, metodologias e tecnologias para o mundo das redes sociais digitais corporativas. Professor nos seguintes cursos do Rio: MBA de Gestão de Conhecimento do CRIE/Coppe/UFRJ, Gestão Estratégica de Marketing Digital e/ou Mídias Digitais nos cursos de Pós-graduação da Faculdade Hélio Alonso (IGEC), Mídias Digitais Interativas no Senac/RJ e Marketing Digital na Fundação Getúlio Vargas. Escolhido como um dos 50 Campeões brasileiros de inovação, pela Revista Info, em 2007. É também co-autor junto com Marcos Cavalcanti do primeiro livro sobre Web 2.0 no Brasil: Conhecimento em Rede, da Editora Campus/Elsevier, utilizado em vários concursos públicos, incluindo o do BNDES. Diretor Executivo da Pontonet, primeira empresa de Consultoria da Web Brasileira, fundada em 1995, que reúne em sua carteira mais de 340 projetos de consultoria estratégica em Internet, mais recentemente tem trabalhado na Vale, BNDES, Petrobras, Dataprev, Prodesp, Embrapa e Natura. Site: nepo.com.br

Carlos Nepomuceno

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