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Inúteis. Nós somos todos inúteis

publicado por Lígia Marques

Para quem está estranhando o título desse artigo de hoje, peço um pouco de paciência e reflexão. Ao final, o entenderão melhor e quiçá concordarão com ele.

Observe um pouco mais detalhadamente o mundo à sua volta e perceba algumas novidades:
– Limite de velocidade nas principais avenidas da cidade passa a ser de 60 km/h.
– Uso obrigatório de cinto de segurança, sob pena de sermos multados.
-Proposta de proibição de garupa em motos tramitando como um novo projeto de lei.
– Lei anti fumo, recém ampliada para todo Brasil.
-Lei Seca monitorando os motoristas que dirigem alcoolizados.
-Câmeras de monitoramento em todos os locais em nome de sua segurança pessoal.
– Facebook “inovando” com sua proposta de “compartilhamento sem fricção”, onde não necessitaríamos mais indicar o que deve ser compartilhado. Tudo seria automaticamente definido e compartilhado pelo próprio sistema analisando dados de sua vida particular, numa perigosa intromissão na sua vida real.

Não vou me alongar em mais exemplos. Acho que estes já bastam para o que quero construir com este artigo.

Não sou,absolutamente contra algumas destas novas leis que, no fim, acabam mesmo por nos beneficiar em termos de segurança, mas me sinto um tanto incomodada com estas interferências naquilo que seria de âmbito muito particular e pergunto:
Não seria melhor que, de livre e espontânea vontade, nós mesmos tomássemos atitudes que nos protegessem ao invés de delegarmos cada vez mais esta tarefa a um poder estatal? Não seria melhor que assumíssemos nossos próprios riscos, tomássemos as rédeas de nossas vidas e optássemos por levarmos uma vida consciente, de mais respeito ao próximo e a nós mesmos, sem necessitarmos desta interferência externa?

A cada dia que passa percebo que, como crianças imaturas, o ser humano deste século XXI se mostra como alguém incompetente para gerar suas atitudes deixando que, como única alternativa cômoda e eficiente, outros (no caso um poder maior, geralmente o Estado) assuma o controle.

Inúteis. Assim nos colocamos no novo mundo. Incapazes de definirmos o que é certo ou errado, agimos a mercê de um quase controle remoto. Incompetentes para fazermos nossas escolhas ou nos responsabilizarmos por elas, achamos ótimo que existam leis que nos obriguem a fazer o que deveria ser feito naturalmente,simplesmente por ser o melhor para toda a sociedade Vivemos um tempo em que adoramos ser controlados, um tempo em que adultos gritam por limites,tais quais uma criança os pede para seus pais.

Isto está se tornando, em minha opinião, algo bastante preocupante.

Um Estado Democrático se constrói dentro do respeito às diferenças individuais. Termos um órgão controlador, mesmo disfarçado sob o traje cor de rosa de uma boa fada madrinha e protetora que toma decisões em nosso favor e lugar, constitui uma grande ameaça a ele a médio e longo prazo.

Hoje vemos crianças totalmente mal educadas, sem limite algum em suas atitudes e pais incapazes de dar-lhes um mínimo de direcionamento, pois temem desagradá-las, traumatizá-las de alguma forma. Eles próprios perderam seu senso crítico e apenas reagem a ordens que lhe são impostas por pequenos indivíduos acostumados ao “aqui e agora”.

Criam-se verdadeiros monstrinhos dentro de casa à espera de que ,como num passe de mágica,alguém os controle depois.Um controle que inicialmente delegarão à escola (quando não é essa sua obrigação original), e mais tarde a algum outro órgão de poder. (Quantas vezes não fui chamada para “dar um jeito” em crianças descontroladas. Não é esse meu papel, digo aos pais. Educá-los é tarefa de vocês. O que faço é dar o polimento em atitudes que as farão pessoas ainda melhores e mais educadas).

E assim, uma nova ordem está sendo gradativamente construída sob nossos olhares passivos e assertivos. Tudo feito delicadamente em nome de maior segurança, do politicamente correto, num mundo que se mostra cada vez mais destrambelhado.

Enganou-se John Lennon. O sonho não acabou. Apenas não é mais o mesmo. O sonho de liberdade hoje dá lugar ao sonho de sermos plenamente protegidos. Uma proteção que mais tarde se mostrará sua real face, como o pesadelo de termos perdido toda e qualquer liberdade conquistada. São rotas opostas. Uma que prezava a liberdade individual, democrática. Outra que nos leva a uma ditadura regida por uma massa controlada tecnologicamente.

Podem me chamar de pessimista, mas não vejo como poderemos ser humanos felizes, cidadãos responsáveis e seres psicológica e emocionalmente maduros se não formos capazes de, ao menos, pensarmos, avaliarmos e decidirmos por nós mesmos.

É isso. Bem vindos ao século XXI.

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Autor

Ligia Marques tem uma formação eclética dentro da Universidade de São Paulo (USP) onde se diplomou em Ciências Sociais/Antropologia e Medicina Veterinária. Aliando a prática acadêmica à sua vivência pessoal e familiar bastante exigente percebeu a demanda e criou o primeiro curso de Etiqueta para Crianças e Adolescentes com metodologia própria à idade alcançando grande sucesso. A partir daí desenvolveu treinamentos para adultos e empresas sendo hoje uma referência na área de Etiqueta Corporativa e Marketing Pessoal em todo Brasil. Ampliou sua área de atuação e conhecimentos freqüentando cursos de extensão universitária na ESPM-SP e PUC-SP ministrados por grandes referências na área de Midias Sociais. Hoje aborda com distinção os temas que envolvem a Etiqueta e Comportamento Online. Autora dos livros: Sem Noção (Ed.Matrix -2008). Os Sete Pecados do Mundo Corporativo (Ed. Vozes - 2011) e Etiqueta 3.0 – Atitudes e Comportamento Online e Offline (Ed.Generale 2011). Palestrante em inúmeras empresas por todo o Brasil, na área de Etiqueta Corporativa ,Marketing Pessoal e Gestão em Mídias Sociais. Contatos: Twitter: @ligiamarqs Facebook: www.facebook.com/ligiamarquesetiqueta www.etiqueta3ponto0 Linkedin: http://br.linkedin.com/in/ligiamarquesetiqueta

Lígia Marques

Comentários

2 Comments

  • E cada vez mais estamos vivendo num mundo distópico criado por George Orwell em “1984” quiçá até mesmo num mundo mais parecido com o “Admirável Mundo Novo” de Huxley.

    Abraços!

  • Obrigada pelo comentário,Leandro.O debate sobre esse tipo de questão é muito importante.Precisamos pensar a respeito e não só sermos levados pela maré.
    Um outro comportamento típico desse novo mundo seria também esse: “curtir” sem questionar.Eu curto,ele curte,nós curtimos e poucos participam com comentários instigantes. Um grande abraço
    Ligia

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