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Ativismo online na Ficha Limpa: A Internet está mudando a política

publicado por Graziela Tanaka

Vários países ao redor do mundo já testemunharam como a mobilização online pode ter um grande impacto sobre a política. Com a campanha Ficha Limpa esta tendência internacional foi finalmente comprovada no Brasil. A Internet já é responsável por disseminar e criar oportunidades de mobilização popular, levando a voz de cidadãos comuns para momentos políticos decisivos, seja em questões como o meio ambiente, direitos humanos, campanhas eleitorais ou outras questões políticas, sociais e ambientais. Estamos presenciando o surgimento de uma nova forma de engajamento que permite uma participação popular mais abrangente, atingindo um número cada vez maior de pessoas. Através da Internet, qualquer um que se preocupa com questões políticas importantes, encontra uma maneira de se manifestar estando em qualquer lugar do mundo.

O potencial do uso da Internet para o “bem” é ilimitado. A sua capacidade de difundir informações rapidamente a tornou uma fonte de comunicação poderosa, e quando colocada ao uso de questões sociais, ambientais e políticas, pode gerar resultados rápidos e surpreendentes enquanto antes as campanhas levavam meses, senão anos, para atingir o mesmo reconhecimento e impacto. Imagine por exemplo os abusos de direitos humanos cometidos por muitos dos governos Latino Americanos durante a época das ditaduras militares, os seqüestros, desaparecimentos e outros crimes que nunca foram expostos ao público devido à forte censura da imprensa, dificilmente ficariam omissos hoje em dia quando há redes de solidariedade que usam a Internet como fonte alternativa de comunicação. Estas redes, ONGs, grupos e até mesmo indivíduos poderiam ter facilmente exposto e denunciado os abusos nacional e internacionalmente, influenciando a opinião pública e cobrando uma mudança de postura e justiça. Os crimes ambientais hoje em dia também podem ser facilmente monitorados, denunciados e levados ao público global, mesmo quando ele acontece nas áreas mais remotas de uma floresta ou qualquer outra área ameaçada.

O componente online da campanha pela Ficha Limpa coordenada pela Avaaz é o maior e o melhor exemplo do poder desta ferramenta. Ao longo de quatro meses, a propagação da Ficha Limpa pela Internet aconteceu de forma crescente e surpreendente. Os alertas de campanha chegaram aos quatro cantos do país, gerando repercussão midiática, engajando pessoas em diversas ações e principalmente levando a mensagem da sociedade civil diretamente aos ouvidos dos deputados e governantes. Os alertas de campanha foram disseminados para mais de 1.600.000 pessoas através da ferramenta “Avise seus amigos”, sem contar as que foram propagadas diretamente. A petição online, somada aos números coletados em papel pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, ganhou centenas de milhares de assinaturas em poucas semanas, empurrando o total de assinaturas para além de 2 milhões de brasileiros. A campanha Ficha Limpa se tornou um “top trending topic” (assuntos mais postados) do Twitter por uma semana. A lista de apoiadores da Avaaz cresceu ao longo da campanha de 130.000 pessoas para 600.000 pessoas, tornando o Brasil o maior país entre os 5,2 milhões de membros da Avaaz em todos os países do mundo. Estes são apenas alguns números para ilustrar o alcance da campanha e o seu sucesso em se difundir pelo país, porém aconteceram ainda inúmeras outras formas de divulgação por redes sociais, blogs, listas de discussão, etc., que não poderiam ser contabilizados.

Mas como isto aconteceu? A mobilização online parece simples, basta criar uma página de petição em um site e enviar alertas divulgando a campanha, incentivando as pessoas a assinarem. Porém, na realidade, são poucas as iniciativas pela Internet que realmente entendem e fazem a mobilização online de forma eficaz, gerando campanhas virais e conseguindo resultados. Muitas iniciativas não conseguem alcançar um nível de difusão necessário para manter a campanha viva e gerar um impacto político concreto. Campanhas viriais, aquelas que crescem de forma exponencial como um vírus, acontecem de forma rara e espontânea. Uma pessoa recebe um email, repassa para outras cinco pessoas, estas cinco por sua vez repassam para outras cinco. Para se ter uma idéia, de acordo com os dados da Avaaz, cada pessoa repassou os alertas para uma média de outras 47. E aí que está o segredo. Uma boa campanha tem que ter um apelo tão forte que motive as pessoas a acreditarem nela o suficiente para assinar e aderir, e ainda repassarem para a sua lista de contatos. Vemos hoje em dia uma saturação de informação, principalmente por email e na Internet, portanto para ter um crescimento viral, uma campanha precisa se destacar entre tudo que é repassado, chamando a atenção pela sua idéia e conteúdo. A grande força da campanha Ficha Limpa, além de tratar de um tema que revolta os brasileiros, foi uma estratégia política bem amarrada e coordenada com o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral.

Raros são os momentos (se é que já houve um!) em que os brasileiros acompanharam de perto cada passo do processo legislativo desde a elaboração até a aprovação de um projeto de lei. E mais ainda, não só acompanharam como se manifestaram a respeito. No caso da Ficha Limpa, ao longo dos meses em que o projeto de lei esteve entrando e saindo de comissões, indo para votações e sendo adiado, as pessoas acompanharam cada passo do processo e em todo momento participaram ativamente das campanhas para evitar qualquer retrocesso ou atraso no processo. Esta campanha foi, portanto, uma forma surpreendente de incentivo à cidadania, despertando o interesse dos brasileiros para o processo legislativo, que em outras circunstâncias seria considerado fora do alcance, tedioso ou técnico demais para o cidadão comum.

A Avaaz e o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral conseguiram articular uma ponte entre o que acontecia na Câmara dos Deputados, traduzindo a situação para o público geral através de uma ação online e finalmente repercutindo o resultado da mobilização para o poder público e a mídia. Tudo isto aconteceu de forma ágil e rápida, para que cada desdobramento no Congresso Nacional tivesse uma reação da sociedade civil direta e quase que imediata. O entusiasmo das pessoas que participaram foi inspirador. Centenas de pessoas entraram em contato com a Avaaz com mensagens de incentivo, agradecendo a oportunidade de poder fazer algo para acabar com a corrupção no Brasil. As pessoas escreviam dizendo que assinaram a petição, que divulgaram de todas as formas possíveis, que enviaram mensagens para os deputados, que ligaram para os seus escritórios, etc. Algumas chegaram a dizer que a campanha pela Ficha Limpa foi a primeira grande mobilização popular por uma questão política desde o movimento dos caras pintadas que pediram o impeachment do então Presidente Fernando Collor.

A campanha Ficha Limpa foi uma enorme vitória de  mobilização popular. Conforme “twittou” o Senador Cristóvão Buarque a Ficha Limpa é uma “vitória dos internautas”. Quando o Projeto de Lei foi apresentado à Câmara dos Deputados e entregue em mãos ao Presidente da Câmara Michel Temer em outubro de 2009, ele mesmo afirmou que não havia apoio político o suficiente para aprovar a Ficha Limpa. Apenas oito meses depois no dia 4 de junho de 2010 o Presidente da República Luis Inácio Lula da Silva estaria sancionando a Ficha Limpa, tornando-a lei. A pressão popular crescente ao longo destes oito meses foi aos poucos acabando com qualquer oposição ao projeto de lei. Todo e qualquer político sensato viu que desafiar publicamente a Ficha Limpa seria totalmente destrutivo para a sua imagem pública. Porém não quer dizer que foi fácil e que não houve desafios. A oposição aconteceu de forma velada com inúmeras tentativas de alterar o texto ou adiar a votação do projeto de lei. Deputados que não eram explicitamente contra a Ficha Limpa, diziam apenas que ela precisava ser “aperfeiçoada” como desculpa para tentar incluir brechas que enfraqueceriam a Ficha Limpa, removendo pontos importantes ou abrindo espaço para os condenados recorrerem e não serem impactados pela lei.

Em várias etapas do processo houve tentativas de enfraquecer a Ficha Limpa ou adiar a votação. Quando o Projeto de Lei Ficha Limpa foi enviada para a Comissão de Constituição e Justiça que o iria avaliar e rever, houve uma forte ameaça de alguns deputados que se aproveitariam da situação para tentar novamente alterar e enfraquecer o projeto de lei. Neste momento foi enviado um alerta convocando os apoiadores da Avaaz a enviarem mensagens e ligarem para os deputados que compõe a comissão pedindo que não fosse aprovada nenhuma alteração no texto. O resultado foi mais de 40.000 mensagens enviadas e centenas de telefonemas em poucos dias, surpreendendo os deputados ao lotar as caixas de entrada dos seus emails e questionando seus posicionamentos por telefone. A Comissão, sentindo a pressão, se manteve firme ao texto aprovado pela sociedade civil. Mais uma batalha foi ganha, mas ainda havia um longo percurso até a votação final pela aprovação, ou não, da Ficha Limpa em plenário.

O componente mais forte da campanha era conseguir uma petição massiva em apoio à Ficha Limpa, com dois milhões de nomes, para que não houvesse equivoco entre os deputados de que este projeto de lei era uma clara representação dos interesses da sociedade brasileira. Nas semanas que antecederam a votação a petição online deu um salto espetacular. Houve uma difusão tão forte via redes sociais, Twitter e email, que a petição ganhou centenas de milhares de assinaturas em poucos dias. A entrega da petição foi marcada em um ato simbólico no Congresso Nacional, no que seria uma grande “faxina na política” demonstrando o apoio popular massivo pela Ficha Limpa. Os dias antes do ato foram emocionantes, se podia observar minuto a minuto o crescimento da petição até que ela atingisse a meta de 2 milhões de brasileiros. A meta foi alcançada a tempo e no dia da entrega da petição apoiadores da campanha estavam a postos na rampa do Congresso com um banner gigante, baldes, vassouras e aventais para a faxina. O ato de 2 milhões de brasileiros pela Ficha Limpa foi altamente coberto pela imprensa, chegando aos principais jornais e noticiários do país. A petição foi entregue para um grupo de deputados dentro da Câmara, pedindo o compromisso deles em aprovarem a Ficha Limpa sem alterações nem atrasos. Neste mesmo dia, já em plenária vários deputados deram discursos calorosos a favor da Ficha Limpa citando as nossas 2 milhões de assinaturas e a força da sociedade brasileira em se engajar na luta para aprovar a Ficha Limpa.

Todavia, mesmo durante a votação as ameaças não pararam. Quando chegou ao plenário da Câmara dos Deputados, vários deputados apresentaram destaques, propostas de alterações no texto da lei com o intuito de enfraquecê-la. Tantos foram os destaques que a votação foi se prolongando, passando do tempo previsto e tendo que ser novamente adiada. Os organizadores da campanha, já frustrados com tantas tentativas de alterar a lei e adiar a votação, enviaram mais um alerta. Desta vez o alerta pedia para as pessoas agirem urgentemente em defesa da Ficha Limpa enviando mensagens para os seus deputados dos seus estados, perguntando como eles se posicionariam e pedindo para eles votarem contra todos os destaques propostos. O telefone dos deputados que apresentaram os destaques foi publicado em uma página de campanha, convocando as pessoas a ligarem para estes deputados pedindo que eles removessem os seus destaques na sessão da votação. Quando chegou o momento da votação, cada um dos destaques foi sendo derrubado um a um, por uma grande margem de vitória. Nenhum foi aprovado.

Neste momento ficou claro que o custo político para votar contra a Ficha Limpa era muito alto, até mesmo os deputados notoriamente corruptos não conseguiram votar contra. Quando a Ficha Limpa chegou ao Senado, ela ainda sofreu mais uma ameaça: o Senador Romero Jucá tentou adiar a votação alegando que outros assuntos como o pré-sal eram mais urgentes e que não havia pressa do Senado em aprovar a Ficha Limpa. A tentativa do Senador Jucá foi derrubada e foi dada a urgência para a votação da Ficha Limpa, que acabou passando por unanimidade. A sanção do Presidente Lula também aconteceu sem maiores demoras o que transferiu imediatamente a responsabilidade do Tribunal Superior Eleitoral em definir a validação ou não da Ficha Limpa para as eleições de outubro de 2010. O Tribunal Superior Eleitoral até o último minuto manteve mistério sobre qual decisão pretendia tomar, gerando grande expectativa pelos participantes da campanha. No dia em que seria anunciada a decisão do TSE, mais um alerta foi enviado pedindo para as pessoas telefonarem urgentemente para TSE deixando claro que a expectativa da sociedade civil é que a Ficha Limpa passaria a valer já para as eleições de 2010. O TSE que provavelmente quase não recebe ligações de manifestações populares foi inundado com telefonemas dos apoiadores da campanha. Assim como os deputados, eles sentiram na pele a pressão popular cobrando uma decisão compatível com a vontade da sociedade brasileira em validar a Ficha Limpa para outubro. No mesmo dia foi anunciada a decisão positiva do TSE de validar a Lei Ficha Limpa para as eleições de 2010.

Ao longo da campanha, a crescente disseminação da Ficha Limpa chamou a atenção da mídia, e o número de veículos midiáticos interessados em cobrir a mobilização aumentou progressivamente. A constante presença da campanha nos maiores jornais impressos e televisionados do país manteve a população engajada, assim como continuou a lembrar os políticos que o movimento era incansável e determinado. Mesmo após a lei ter sido sancionada a cobertura da imprensa sobre a campanha se manteve firme e interessada. O ativismo online que até então tinha pouco reconhecimento como forma efetiva de transformação social, passou a despertar o interesse de vários veículos, abrindo espaço para o debate da função da Internet na política.

Mais do que um grande exemplo de que o brasileiro afinal de contas é mais engajado e otimista do que se diz, a Ficha Limpa representa só o começo de muitas outras comprovações de que estamos preparados para usar a Internet de forma eficaz para trazer transformações sociais e políticas para o país e o mundo. Quando as formas de comunicação mudam e evoluem, a política também terá que mudar. Teremos que ter mais espaços e canais de participação democrática, sejam eles meios oficiais do governo ou sejam por iniciativas não governamentais. Agora que temos um pequeno sabor do que podemos alcançar, sabemos que ao lutar por causas importantes e urgentes nunca mais seremos ignorados. Cabe aos nossos políticos se adaptarem e evoluírem também, prestando mais atenção aos anseios da sociedade e sabendo que eles trabalham para nós. Eles tem a responsabilidade de representar os nossos interesses e nos ouvir, sabendo que nós também estamos atentos e prontos para agir quando surgir a necessidade de lutarmos por questões de cidadania e justiça.

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Graziela Tanaka é ativista, socióloga e coordenadora de campanhas da ONG Avaaz no Brasil. Participou da campanha em favor da Ficha Limpa.

Graziela Tanaka

Comentários

7 Comments

  • O povo quer mesmo ver corruptos de fora, no entanto apesar do ficha limpa ter sido aprovado, Maluff em São Paulo inocentado, bem como depois de inúmeras provas mostradas na mídia sobre os diários secretos no Paraná, vemos Justus também inocentado pela “comissão de ética da Assembléia”,e para começar bem o govenrno de Dilma… Amorim concede passaporte diplomático bispo, netos e filho da Igreja Universal (com direito a uso de carros oficiais das embaixadas!!!Já decalrou que nada de errado foi encontrado contra Erenice Guerra, que participou com honras na ala reservada a autoridades em sua posse… fora Edu Gato ( que n#ao precisamos nem comentar o porque do apelido) no Amapá,e outros de norte a sul… diplomados… parece mesmo que estamos muito longe de resolver os problemas de corrupção neste país!!!

  • O povo quer mesmo ver corruptos de fora, no entanto apesar do ficha limpa ter sido aprovado, Maluff em São Paulo inocentado, bem como depois de inúmeras provas mostradas na mídia sobre os diários secretos no Paraná, vemos Justus também inocentado pela “comissão de ética da Assembléia”,e para começar bem o govenrno de Dilma…

  • Sem dúvida, a internet esta sendo o meio de comunicação mais inovador e produtivo no estado contemporâneo, parabéns aos movimentos de apoio que são os grandes aliados dos interesses sociais, assim percebemos que a mudança esta apenas começando;um começo que representa a vitória.

  • Internet não tem poder nenhum. A Avaaz é uma entidade muito suspeita.
    Assinaturas via internet podem ser facilmente forjadas. Qualquer um pode assinar a mesma petição quantas vezes quiser, bastando modificar o nome ou uma letra.

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