Ontem, vi este filme na Net: “Formigas – a força secreta da natureza“, no Youtube com legenda. Recomendo e vou começar os testes de incluí-lo nas minha aulas.
Destacaria do filme:
- – que o principal avanço que fizeram sobre o estudo da formiga, segundo o pesquisador, é o de como elas usam a comunicação como fator de gestão, a base principal para que elas possam realizas as atividades do formigueiro sem um líder-alfa, tomando decisões sem perder a eficácia;
- – a comunicação das formigas é toda baseada na troca de rastro de odores que elas deixam, enquanto trabalham, que vão se somando a cada nova formiga que passa. Colaborar e trabalhar é tudo o mesmo barco. Tal prática as permite saber aonde como voltar ao formigueiro, onde está a melhor comida, o que cada um dos diferentes perfis das formigas fará para que a outra possa colaborar, além de outras decisões sobre reprodução, ataque, mudanças de “sede”, etc..
Não há na organização das formigas um comando central, que define o que será feito, mas cada formiga vai deixando um certo odor, que somado a outros, vai ficando mais forte e define, a partir da força do odor, o melhor caminho.
A base da organização das formigas é uma rede de odores, que é a comunicação/produtiva, que permite que elas operem de forma independente a um macho/fêmea-alfa como outras espécies de animais, como os leões ou as hienas, que não deixam de ser eficientes.
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Note que uma espécie com menos membros pode ser eficiente tendo um líder mais definido e com mais poder sobre as ações, porém o tamanho da matilha/bando deve permanecer pequeno, pois há um limite de administração, em função da coordenação possível que a comunicação/gestão do líder alfa permite. O aumento de número da população exige uma sofisticação no modelo da comunicação/produção.
Há uma relação de causa e efeito, assim, entre:
- o tipo de comunicação e a gestão;
- o tipo de gestão adotada com o tamanho dos membros de dada espécie;
- quanto maior o tamanho dos membros, menos bando/matilha/líder-alfa e mais formigueiro/comunicação de odores.
As formigas – as abelhas fazem algo parecido – adotaram a gestão/comunicação da ”democracia de odores” em função do número de habitantes no formigueiro. É uma forma rápida e eficaz de cada um ir “votando” e ajudando aos demais para que o que vem depois possa se beneficiar da visita da anterior, tal como estamos começando a fazer nos projetos 2.0.
O filme, assim, é um grande apoio educativo para a discussão da mudança 2.0, que estamos passando e a compreensão da nova sociedade que estamos entrando, pois passa de forma rápida e curta uma visão complexa. Nele, podemos mais facilmente afirmar que estamos saindo da sociedade hierárquica dos líderes-alfa.
Estamos, assim, saindo do modelo de comunicação/gestão atual criado, a partir de 1450, com a massificação da escrita centralizadora, que definiu topologicamente um modus-operandi baseado em líderes-alfa do que em um formigueiro de odores.
Os líderes-alfa tomam a decisão, a partir de seu “pseudo-conhecimento” do bando. Porém, a coordenação centralizada dos processos, entretanto, que funcionou para um tamanho de matilha/bando, tem seus limites, pois deixa de ser eficaz quando o tamanho do “formigueiro” salta de 1 para 7 bilhões, em 200 anos, como foi o nosso caso, ainda mais quando resolve se concentrar cada vez mais em grandes cidades.
A chegada do mundo 2.0 marca o início da passagem de um mundo do bando/matilha centralizado em líderes/alfa para o modelo muito mais formigueiro, que só é viável dentro de plataformas colaborativas que permitem o uso dos rastros digitais. Sem a geração e o uso eficiente de rastros digitais, vamos sempre precisar de líderes-alfa.
No filme das formigas, assim, a base dessa nova organização é feita, através de odores, que são deixados nas trilhas para que as outras formigas possam ser orientadas pelas que já passaram, definindo a melhor decisão a ser tomada pela nível do cheiro deixado. Quanto mais, mais forte!
Não custa nada para as que vão na frente ir odorizando o caminho, pois elas andam e expelem o odor ao mesmo tempo, criando um modelo meritocrático de voto bem eficaz. Eu trabalho e, ao mesmo tempo, informo ao resto o que estou vendo e as decisões que estou tomando. Não há separação entre colaborar e trabalhar, pois é tudo a mesma coisa.
É a base da colaboração/trabalho da web 2.0 que temos tanta dificuldade de enxergar.
Tudo se resume, assim, ao rastro comunicacional/produtivo, que só é possível ser gerado em plataformas colaborativas em um modelo de gestão que os perceba e utilize!
É uma forma de tomada de decisão mais eficaz, pois não parte da intuição do líder-alfa, mas da experiência do grupo, para que possa definir a decisão mais eficaz a ser tomada, reduzindo o risco de erro.
Ao se trabalhar e agir está ao mesmo tempo votando e orientando as decisões.
Note que nas organizações humanas no modelo atual matilha/bando a tomada de decisão é menos precisa, pois alguém necessita – a partir de seu conhecimento de líder/alfa – definir o que é melhor para o coletivo, sem mais conseguir ter o “feeling” do novo conjunto:
- editoras – que livros lanço, para quem, quantas cópias?
- bancos – para quem empresto, a quanto, de que maneira?
- governo – aonde invisto, de que forma, com que detalhes?
- justiça – como julgo este ou aquele caso?
- mídia – o que cubro ou dou destaque, como?
A margem de erro de uma decisão tomada no modelo líder/alfa é cada vez maior, conforme o tamanho do “formigueiro” vai aumentando, ficando cada vez mais lenta, cara e ineficiente. Além disso, a própria chegada de uma mídia descontroladora, vai tornando cada formiga cada vez mais diferente, exigente, mais rápida, com poder de reclamar e se auto-mobilizar.
Arrisco dizer que todas as crises que temos hoje políticas, sociais e econômicas são resultado desse modelo topológico, que precisa se rever, mas resiste, o que é humano, porém precisamos agora ter forças para superar nossas limitações.
Uma revolução cognitiva, assim, marca a chegada de um novo modelo topológico comunicacional/produtivo mais dinâmico, só possível em plataformas colaborativas.
Nelas, temos, então como novidade:
- – a relação entre cada cidadão/cliente e a informação/trabalho é feita diante de uma tela, que permite deixar rastros/odores;
- – o acesso é feito, através de cliques, que deixam um rastro involuntário, mesmo que não se queira;
- – e é possível deixar comentários, estrelas, curtições que são rastros voluntários, ampliando ainda mais o potencial, desde que tudo seja fácil, agradável e que todos sintam que estão colaborando para o todo, com retorno para si.
Esse conjunto de “odores” voluntários e involuntários vai deixando uma trilha para ajudar o coletivo a tomar decisões mais precisas do que o modelo anterior do líder/alfa.
Tal mudança vai ”formigarizando” a sociedade.
É uma meritocracia das decisões mais precisa do que a anterior, mais barata e compatível com a passagem do tamanho do número de habitantes a ser atendido e gerenciado, que cresceu 7 vezes nos últimos 200 anos.
Somos, entretanto, uma espécie que tem características diferentes, pois não nos guiamos apenas por instintos, pois temos a capacidade de repensar o que fazemos e nos agarrar ao modelo que temos e seus interesses específicos.
Não, não funcionamos como um coletivo vivo em prol do todo, pois há os interesses individuais e seus desejos muitas vezes são contrários ao do grupo, mesmo que sejam ineficientes – são nossas neuroses, defeitos, contradições que nos impedem de ir adiante.
O velho instinto de vida versus o de morte, a luta do bem (do coletivo) contra o mail (o instinto individualista).
Porém, há a necessidade numérica demográfica que nos arrasta e um novo modelo que demonstra ser um caminho mais eficaz , sendo aceito primeiro pela nova geração com projetos concretos e experimentais turbinados pelo capital de risco (santo capital de risco!).
Eis, portanto, o papel dos agentes de mudança 2.0: criar os melhores “formigueiros” possíveis para reduzir o sofrimento das formigas, que não conseguem mais ver resolvidos seus problemas na topologia do obsoleto modelo do líder-alfa anterior.
O bando cresceu e a topologia tem que ser outra!
É isso, que dizes?
1 comentário
Ótimo artigo Carlos, venho acompanhando tantos outros que só me acrescentam profissionalmente e esse então veio em bom momento. Estou pesquisando sobre Colaboração no meio Corporativo e como isso pode ser feito e se basear nos odores que as formigas deixam foi um aspecto bastante significativo para mim.