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A “formiguização” humana

publicado por Carlos Nepomuceno

Ontem, vi este filme na Net: “Formigas – a força secreta da natureza“,  no Youtube com legenda. Recomendo e vou começar os testes de incluí-lo nas minha aulas.

Destacaria do filme:

  • – que o principal avanço que fizeram sobre o  estudo da formiga, segundo o pesquisador, é o de como elas usam a comunicação como fator de gestão, a base principal  para que elas possam realizas as atividades do formigueiro sem um líder-alfa, tomando decisões sem perder a eficácia;
  • – a comunicação das formigas é toda baseada na troca de rastro de odores que elas deixam, enquanto trabalham, que vão se somando a cada nova formiga que passa. Colaborar e trabalhar é tudo o mesmo barco. Tal prática as permite  saber aonde como voltar ao formigueiro, onde está a melhor comida, o que cada um dos diferentes perfis das formigas fará para que a outra possa colaborar, além de outras decisões sobre reprodução, ataque, mudanças de “sede”, etc..

Não há na organização das formigas um comando central, que define o que será feito, mas cada formiga vai deixando um certo odor, que somado a outros, vai ficando mais forte e define, a partir da força do odor, o melhor caminho.

A base da organização das formigas é uma rede de odores, que é a comunicação/produtiva, que permite que elas operem de forma independente a um  macho/fêmea-alfa como outras espécies de animais, como os leões ou as hienas, que não deixam de ser eficientes.

Note que uma espécie com menos membros pode ser eficiente tendo um líder mais definido e com mais poder sobre as ações, porém o tamanho da matilha/bando deve permanecer pequeno, pois há um limite de administração, em função da coordenação possível que a comunicação/gestão do líder alfa permite. O aumento de número da população exige uma sofisticação no modelo da comunicação/produção.

Há uma relação de causa e efeito, assim, entre:

  •  o tipo de comunicação e a gestão;
  • o tipo de gestão adotada com o tamanho dos membros de dada espécie;
  • quanto maior o tamanho dos membros, menos bando/matilha/líder-alfa e mais formigueiro/comunicação de odores.

As formigas – as abelhas fazem algo parecido –  adotaram a gestão/comunicação da  ”democracia de odores” em função do número de habitantes no formigueiro. É uma forma rápida e eficaz de cada um ir “votando” e ajudando aos demais para que o que vem depois possa se beneficiar da visita da anterior, tal como estamos começando a fazer nos projetos 2.0.

O filme, assim, é um grande apoio educativo para a discussão da mudança 2.0, que estamos passando e a compreensão da nova sociedade que estamos entrando, pois passa de forma rápida e curta uma visão complexa. Nele, podemos mais facilmente afirmar que estamos saindo da sociedade hierárquica dos líderes-alfa.

Estamos, assim, saindo do modelo de comunicação/gestão atual  criado, a partir de 1450, com a massificação da escrita centralizadora, que definiu topologicamente um modus-operandi baseado em líderes-alfa do que em um formigueiro de odores.

Os líderes-alfa tomam a decisão, a partir de seu “pseudo-conhecimento” do bando. Porém, a coordenação centralizada dos processos, entretanto,  que funcionou para um tamanho de matilha/bando, tem seus limites, pois deixa de ser eficaz quando o tamanho do “formigueiro” salta de 1 para 7 bilhões, em 200 anos, como foi o nosso caso, ainda mais quando resolve se concentrar cada vez mais em grandes cidades.

A chegada do mundo 2.0 marca o início da passagem de um mundo do bando/matilha centralizado em líderes/alfa para o modelo muito mais formigueiro, que só é viável dentro de plataformas colaborativas que permitem o uso dos rastros digitais.  Sem a geração e o uso eficiente de rastros digitais, vamos sempre precisar de líderes-alfa.

No filme das formigas, assim, a base dessa nova organização é feita, através de odores, que são deixados nas trilhas para que as outras formigas possam ser orientadas pelas que já passaram, definindo a melhor decisão a ser tomada pela nível do cheiro deixado. Quanto mais, mais forte!

Não custa nada para as que vão na frente ir odorizando o caminho, pois elas andam e expelem o odor ao mesmo tempo, criando um modelo meritocrático de voto bem eficaz. Eu trabalho e, ao mesmo tempo, informo ao resto o que estou vendo e as decisões que estou tomando. Não há separação entre colaborar e trabalhar, pois é tudo a mesma coisa.

É a base da colaboração/trabalho da web 2.0 que temos tanta dificuldade de enxergar.

Tudo se resume, assim, ao rastro comunicacional/produtivo, que só é possível ser gerado em plataformas colaborativas em um modelo de gestão que os perceba e utilize!

É uma forma de tomada de decisão mais eficaz, pois não parte da intuição do líder-alfa, mas da experiência do grupo, para que possa definir a decisão mais eficaz a ser tomada, reduzindo o risco de erro.

Ao se trabalhar e agir está ao mesmo tempo votando e orientando as decisões.

Note que nas organizações humanas no modelo atual matilha/bando a tomada de decisão é menos precisa, pois alguém necessita – a partir de seu conhecimento de líder/alfa – definir o que é melhor para o coletivo, sem mais conseguir ter o “feeling” do novo conjunto:

  • editoras –  que livros lanço, para quem, quantas cópias?
  • bancos – para quem empresto, a quanto, de que maneira?
  • governo – aonde invisto, de que forma, com que detalhes?
  • justiça – como julgo este ou aquele caso?
  •  mídia – o que cubro ou dou destaque, como?

A margem de erro de uma decisão tomada no modelo líder/alfa é cada vez maior, conforme o tamanho do “formigueiro” vai aumentando, ficando cada vez mais lenta, cara e ineficiente. Além disso, a própria chegada de uma mídia descontroladora, vai tornando cada formiga cada vez mais diferente, exigente, mais rápida, com poder de reclamar e se auto-mobilizar.

Arrisco dizer que todas as crises que temos hoje políticas, sociais e econômicas são resultado desse modelo topológico, que precisa se rever, mas resiste, o que é humano, porém precisamos agora ter forças para superar nossas limitações.

Uma revolução cognitiva, assim, marca a chegada de um novo modelo topológico comunicacional/produtivo mais dinâmico, só possível em plataformas colaborativas.

Nelas, temos, então como novidade:

  • – a relação entre cada cidadão/cliente e a informação/trabalho é feita diante de uma tela, que permite deixar rastros/odores;
  • – o acesso é feito, através de cliques, que deixam um rastro involuntário, mesmo que não se queira;
  • – e é possível deixar comentários, estrelas, curtições que são rastros voluntários, ampliando ainda mais o potencial, desde que tudo seja fácil, agradável e que todos sintam que estão colaborando para o todo, com retorno para si.

Esse conjunto de “odores” voluntários e involuntários vai deixando uma trilha para ajudar o coletivo a tomar decisões mais precisas do que o modelo anterior do líder/alfa.

Tal mudança vai  ”formigarizando”  a sociedade.

É uma meritocracia das decisões mais precisa do que a anterior, mais barata e compatível com a passagem do tamanho do número de habitantes a ser atendido e gerenciado, que cresceu 7 vezes nos últimos 200 anos.

Somos, entretanto, uma espécie que tem características diferentes, pois não nos guiamos apenas por instintos, pois temos a capacidade de repensar o que fazemos e nos agarrar ao modelo que temos e seus interesses específicos.

Não, não funcionamos como um coletivo vivo em prol do todo, pois há os interesses individuais e  seus desejos muitas vezes são contrários ao do grupo, mesmo que sejam ineficientes – são nossas neuroses, defeitos, contradições que nos impedem de ir adiante.

O velho instinto de vida versus o de morte, a luta do bem (do coletivo) contra o mail (o instinto individualista).

Porém, há a necessidade numérica demográfica que nos arrasta e um novo modelo que demonstra ser um caminho mais eficaz , sendo aceito primeiro pela nova geração com projetos concretos e experimentais turbinados pelo capital de risco (santo capital de risco!).

Eis, portanto, o papel dos agentes de mudança 2.0:  criar os melhores “formigueiros” possíveis para reduzir o sofrimento das formigas, que não conseguem mais ver resolvidos seus problemas na topologia do obsoleto modelo do líder-alfa anterior.

O bando cresceu e a topologia tem que ser outra!

É isso, que dizes?

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Autor

Carlos Nepomuceno é Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense/IBICT Instituto Brasileiro em Ciência e Tecnologia com a tese “Macro-crises da Informação”. Jornalista e consultor especializado em estratégia no mundo Digital, desde 1995 com foco no apoio à sociedade a lidar melhor com essa passagem cultural, reduzindo riscos e ampliando oportunidades. Atualmente, se dedica a implantação de projetos de “Gestão de Desintermediação”, que é uma metodologia criada integrada para preparar pessoas, metodologias e tecnologias para o mundo das redes sociais digitais corporativas. Professor nos seguintes cursos do Rio: MBA de Gestão de Conhecimento do CRIE/Coppe/UFRJ, Gestão Estratégica de Marketing Digital e/ou Mídias Digitais nos cursos de Pós-graduação da Faculdade Hélio Alonso (IGEC), Mídias Digitais Interativas no Senac/RJ e Marketing Digital na Fundação Getúlio Vargas. Escolhido como um dos 50 Campeões brasileiros de inovação, pela Revista Info, em 2007. É também co-autor junto com Marcos Cavalcanti do primeiro livro sobre Web 2.0 no Brasil: Conhecimento em Rede, da Editora Campus/Elsevier, utilizado em vários concursos públicos, incluindo o do BNDES. Diretor Executivo da Pontonet, primeira empresa de Consultoria da Web Brasileira, fundada em 1995, que reúne em sua carteira mais de 340 projetos de consultoria estratégica em Internet, mais recentemente tem trabalhado na Vale, BNDES, Petrobras, Dataprev, Prodesp, Embrapa e Natura. Site: nepo.com.br

Carlos Nepomuceno

Comentários

1 Comment

  • Ótimo artigo Carlos, venho acompanhando tantos outros que só me acrescentam profissionalmente e esse então veio em bom momento. Estou pesquisando sobre Colaboração no meio Corporativo e como isso pode ser feito e se basear nos odores que as formigas deixam foi um aspecto bastante significativo para mim.

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