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Ética e computação

publicado por José Luis Braga

Ética e computaçãoEducadores da área de computação devem incluir tópicos relacionados com ética em todos os pontos, de quaisquer disciplinas, onde forem discutidos  tecnologias, métodos e técnicas que tenham ou possam ter impacto social.   Esta declaração, que traduzi livremente, foi extraída de um artigo que li na Communications of the ACM (CACM), que é uma revista considerada de leitura indispensável para a gente se manter atualizado com a evolução da computação. Ética é um ramo da filosofia que busca fundamentar as ações morais exclusivamente pela razão, como é próprio das disciplinas de filosofia. Moral fundamenta-se na obediência a costumes e hábitos originados da cultura, da obediência a leis, etc. Vejam mais aqui para entenderem melhor.

Pela própria natureza da área de computação, que herdou da lógica a sua principal ferramenta de raciocínio que é a abstração, o conhecimento é passado aos nossos alunos sem contato com a realidade ou com o contexto do mundo real onde o conhecimento vai ser aplicado.  O que contrasta fortemente, por exemplo, com alguns cursos de outras áreas, onde os alunos aprendem a enxergar bem cedo os impactos sociais de um erro de cálculo, de um erro de projeto, de uma cadeira mal projetada, de uma prótese mal colocada, etc. Muito embora isso não seja impedimento para termos esse monte de catástrofes originadas em erros e, de alguma forma, na falta de formação ética. Profissionais de áreas tecnológicas tendem a adotar a visão que prevalece em boa parte da indústria: qualquer coisa tecnicamente viável pode ser produzida e submetida ao mercado, as questões éticas devem ser tratadas posteriormente, pelas equipes que cuidam da aderência dos produtos a normas (compliance) vigentes no setor.

Códigos de conduta existem para todas as profissões. Para a computação, temos disponivel o da SBC – Sociedade Brasileira de Computação, que foi em parte inspirado no código da ACM – Association for Computing Machinery, que é bem mais antigo e mais conhecido na área. Particularmente, gosto muito e divulgo entre meus alunos o Juramento do Engenheiro de Software, que já foi objeto de uma postagem curta aqui no blog. Claro, códigos de conduta  ou códigos de ética não resolvem a questão do comportamento ético, que é aliado ao desenvolvimento do caráter de cada um, dos valores de vida, sociais, respeito pelo próximo. Isso dificilmente pode ser ensinado depois de uma certa idade, mas existe um princípio que gosto de passar adiante, introduzi uma pequena alteração que está entre parênteses,  parece engraçado, mas que para mim fala tudo: se você quiser testar se está sendo ético em suas ações, ponha-se do outro lado (minha alteração: ponha sua mãe do outro lado) e verifique se mesmo assim você vai insistir na sua ação. Se o fato de o possivel prejudicado ser você (ou sua mãe, ou sua avó, ou quem você quiser) alterar seu comportamento, pode ter certeza de que você não está sendo ético. Isso vale para as pequenas coisas do nosso diário, até para xingar pessoas no trânsito.

No mundo atual, em que o software é ubíquo e aparece em todo e qualquer dispositivo, essas considerações sobre ética, moral e conduta profissional são cada vez mais atuais e indispensáveis. Os carros autônomos estão chegando ao mercado, é a tecnologia substituindo o ser humano que não tem competência e equilíbrio para conduzir adequadamente um carro no trânsito maluco das nossas cidades e estradas. Melhor a tecnologia cuidar do assunto, mas… e se o software embarcado no computador de bordo dos carros tiver algum erro, aquele errinho que ficou lá no código porque o programador deixou passar e não testou adequadamente  porque achou que não valia a pena? E se o software embutido em algum wearable, por exemplo um relógio de pulso que gerencia o funcionamento do seu corpo mostrando os indicadores  monitorados o dia todo, indicar por alguma falha de projeto ou implementação que você está no limite de sofrer um ataque cardíaco e você estiver dirigindo seu carro no meio do trânsito?  Mais algumas considerações aqui, se tiverem paciência.

Bom, mas voltando ao inicio da postagem, gostei demais da sugestão do artigo. Não adianta termos uma disciplina inteira, ou mais de uma, dedicada a estudos de ética profissional. Fatalmente, essa disciplina vai tomar rumo próprio, será fatalmente filosófica, desacoplada da realidade. E em pouco tempo, vai ficar mais importante do que o objetivo para o qual foi criada, que seria o de passar bons princípios sociais e de comportamento para os alunos no exercício profissional, vai dar sono na sala de aula, os alunos vão detestar. Basta que o professor que criou a disciplina com seus objetivos originais saia de cena (aposentadoria e outras piores), para que a disciplina se perca. Ao passo que, se em todas as disciplinas os princípios éticos forem enfatizados nos momentos certos, a associação estabelecida com o mundo real não se perderá.

Artigo inspirador desta postagem: Arvind Narayanan e Shannon Vallor. Computing ethics: why software engineering courses should include ethics coverage. CACM March, 2014.

Artigo publicado originalmente em zeluisbraga.wordpress.com

[Crédito da Imagem: Ética e computação – ShutterStock]

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Autor

José Luis Braga é Professor Titular do Departamento de Informática na Universidade Federal de Viçosa Formação Acadêmica Pós-Doutoramento - University of Florida - USA, 1999 Doutor em Informática - PUC/Rio - Setembro de 1990 Mestre em Ciência da Computação - DCC/UFMG - Novembro de 1981 Engenheiro Eletricista - PUC/MG - Agosto de 1976 Site: zeluisbraga.wordpress.com

José Luis Braga

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