Nos anos 2010, a onda era criar o cargo de CDO.
Dependia do modismo da vez: podia ser Chief Digital Officer (o guardião da “transformação digital”) ou Chief Data Officer (o zelador dos dados corporativos).
O primeiro sumiu rápido. Na prática, o digital deixou de ser departamento e virou infraestrutura.
O segundo ainda resiste — não por relevância estratégica, mas porque alguém precisa ser responsabilizado quando a LGPD (ou o GDPR) encontra uma brecha. Como diria um CEO com quem tive o prazer de trabalhar: é o CDP — “c* de plantão”.
A fadiga da IA
Corta para 2025.
Agora temos o CAIO – Chief AI Officer. O novo fetiche corporativo.
Empresas anunciam CAIOs como se fossem sumo sacerdotes da inteligência artificial. O problema? Na maioria dos casos, a IA não passa de:
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uma API plugada ao ChatGPT,
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um slide de PowerPoint turbinado,
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ou uma “prova de conceito” que nunca chega à operação.
Além disso, a fadiga da IA é real. O mercado está saturado de promessas mágicas: todo produto tem IA, todo pitch fala de IA, todo plano estratégico cita IA. Por fim, quando você pergunta qual valor real foi entregue, a resposta costuma ser um silêncio constrangedor.
Minha primeira experiência com IA (1994)
E confesso: não é a primeira vez que vejo esse filme.
Em 1994, quando eu ocupava a cadeira de gerente de processos e tecnologia na então Nacional Seguros, a IBM nos convidou a conhecer um sistema de “inteligência artificial” para aceitação de riscos. Tudo rodava em um mainframe, daqueles com terminal 3270.
Na prática, era um enorme ninho de IF–THEN–ELSE, mas que de fato acelerava a análise. Não implantamos por dois motivos:
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já tínhamos o nosso sistema funcionando,
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ele rodava em on-line real time, enquanto a Nacional processava as propostas em batch.
Foi a primeira vez que ouvi o termo IA. Ou seja, mesmo 30 anos atrás, a indústria já tentava vender mágica embrulhada em marketing.
IA: bastidor ou palco?
E é aí que entra o CAIO: a nova cortina de fumaça.
Porque, se não dá para mostrar resultado, pelo menos dá para mostrar organograma.
A questão não é se precisamos ou não de um CAIO.
Dessa forma, a verdadeira pergunta é: IA é tecnologia de bastidor ou de palco?
Se for de bastidor, como energia elétrica ou internet, não faz sentido ter um cargo exclusivo.
Se for de palco, estamos vivendo a mesma peça repetida: só mudamos o figurino do protagonista.
Gostei de fazer previsões: o CAIO não vai durar mais que o CDO.

