Divulgação Científica Falsa nas Plataformas Sociais: Quando o Algoritmo Vira Cúmplice da Desinformação
Introdução
Não gosto de trazer relatos pessoais nos artigos que escrevo, mas, sobre esse tema, não tenho como evitar. Sempre me preocupa a ideia da falsa divulgação científica. Um dos meus grandes amigos, Júlio César Sampaio (@julio_maths no TikTok), vem tratando, discutindo e buscando desvendar esse tema dentro da plataforma, trabalhando fortemente essa discussão nas redes sociais. Enxergo esse movimento não apenas como válido, mas como obrigatório. Partindo dessa premissa, resolvi trazer um artigo sobre o tema.
Vivemos na era do “clique fácil” e da informação instantânea. Se, por um lado, a democratização do acesso ao conhecimento proporcionada pela internet é um dos maiores feitos da humanidade, por outro, a mesma infraestrutura que conecta pesquisadores em rede também serve como vetor para um fenômeno perigoso: a divulgação científica falsa.
No ecossistema das plataformas sociais, a ciência perdeu seu lugar de fala tradicional. Antes confinada a periódicos revisados por pares e instituições acadêmicas, hoje ela compete em pé de igualdade — e muitas vezes em desvantagem — com influenciadores digitais, algoritmos de engajamento e câmaras de eco. Este artigo tem como objetivo analisar os mecanismos técnicos e sociais que transformaram as plataformas digitais no principal canal de disseminação de desinformação científica, bem como os riscos sistêmicos que essa distorção impõe à sociedade.
O Algoritmo como Cúmplice
Do ponto de vista da informática e da arquitetura de sistemas, a desinformação não é apenas um problema sociológico, mas uma feature mal calibrada dos modelos de negócio. As plataformas sociais operam sob o regime da economia da atenção. Algoritmos de recomendação, como os utilizados pelo Facebook, YouTube, TikTok e X, antigo Twitter, são otimizados para maximizar o tempo de tela e a taxa de engajamento.
Conteúdos que evocam emoções fortes — como medo, raiva ou espanto — geram maior interação. A pseudociência, ao oferecer “curas milagrosas” ou teorias conspiratórias sobre vacinas e mudanças climáticas, possui uma carga emocional muito superior à de um artigo científico explicando a metodologia duplo-cega de um estudo. Isso cria um fenômeno conhecido como viés de negatividade impulsionado por código.
Além disso, as arquiteturas de machine learning que alimentam esses sistemas carecem de contexto semântico. Elas não distinguem a autoridade de uma fonte da viralidade de uma fonte. Para um sistema de recomendação, um vídeo caseiro com alegações infundadas sobre tratamento de câncer com bicarbonato de sódio que obtém um milhão de compartilhamentos pode ser tratado como conteúdo de “alta relevância”, recebendo o mesmo peso de um vídeo institucional do Ministério da Saúde.
Esse problema também se conecta ao avanço do lixo digital na era dos LLMs, em que dados ruins, notícias falsas e conteúdos de baixa qualidade passam a alimentar sistemas cada vez mais complexos.
A Estética da Ciência vs. o Método Científico
Outro fator crítico é a capacidade de simulação estética. Nas plataformas sociais, não é necessário ter autoridade científica para parecer ter. A produção de conteúdo digital permite a criação de cenários com jalecos, estantes de livros simbólicas e gráficos complexos gerados por inteligência artificial para conferir um verniz de credibilidade.
A informática forense tem mostrado um aumento exponencial no uso de deepfakes e inteligência artificial aplicada a golpes digitais para colocar falas em contextos falsos, atribuindo a cientistas renomados opiniões que eles nunca emitiram. Esse fenômeno explora uma lacuna na alfabetização midiática da população: a dificuldade em distinguir a forma, ou seja, o formato científico, do conteúdo, isto é, o método científico.
Os Riscos Sistêmicos
O risco da desinformação científica transcende o debate teórico. Ele tem consequências tangíveis e mensuráveis, agindo como uma ameaça à saúde pública, à estabilidade econômica e à democracia.
- Erosão da confiança institucional:
a repetição constante de narrativas falsas sobre instituições de pesquisa, como a Fiocruz ou o INPE, ou agências reguladoras, como a ANVISA, cria um estado de anomia social, no qual o cidadão não sabe mais em quem confiar. - Efeito “cisne negro” em saúde pública:
durante a pandemia da COVID-19, a infodemia e a desinformação sobre tratamentos preventivos e vacinas circularam mais rapidamente nas plataformas sociais do que muitos protocolos oficiais, levando a mortes evitáveis e à sobrecarga de sistemas de saúde. - Radicalização de comunidades:
algoritmos de recomendação frequentemente operam em um “funil de radicalização”. Um usuário que busca conteúdo alternativo sobre nutrição pode ser rapidamente empurrado para comunidades negacionistas da ciência climática ou antivacina, criando grupos cada vez mais isolados da realidade factual.
O problema não é apenas brasileiro. Um estudo publicado na revista Science sobre a propagação de notícias verdadeiras e falsas mostrou como conteúdos falsos podem alcançar pessoas de forma mais rápida e ampla do que informações verdadeiras em ambientes digitais.
Responsabilidades e Contramedidas
A solução para o problema não reside na censura, mas na transparência algorítmica, na educação digital e em uma postura mais madura sobre responsabilidade tecnológica. Do ponto de vista da informática, algumas medidas se tornam urgentes.
- Auditoria de algoritmos:
há uma necessidade urgente de regulamentação que obrigue as plataformas a abrirem seus sistemas de recomendação para auditorias externas, permitindo a verificação de vieses que favorecem a desinformação. - Curadoria de autoridade:
diferentemente do modelo atual, as plataformas poderiam implementar sistemas de credenciamento baseados em infraestrutura de chave pública, ou PKI, para instituições científicas, garantindo que o selo de “verificado” indique não apenas fama, mas validação acadêmica. - Letramento digital em informática:
é imperativo que os cursos de ciência da computação e os fóruns de tecnologia incluam em seus debates a ética algorítmica. O profissional de TI precisa entender que o código não é neutro; ele carrega as premissas de quem o escreve.
Iniciativas como a Cartilha de Segurança para Internet do CERT.br ajudam a ampliar a educação digital da população. No campo institucional, o Programa de Enfrentamento à Desinformação da Justiça Eleitoral mostra como o tema já deixou de ser apenas uma preocupação acadêmica e passou a fazer parte da agenda pública.
Conclusão
A divulgação científica falsa nas plataformas sociais é um subproduto tóxico da combinação entre a arquitetura de engajamento das redes e a vulnerabilidade humana à desinformação. Para os profissionais de informática, este é um chamado à ação. Não podemos nos limitar a ser os construtores das máquinas; devemos ser os guardiões dos critérios que as regem.
Enquanto os algoritmos priorizarem o sensacionalismo em detrimento da precisão, a ciência continuará perdendo a guerra narrativa em seus próprios campos de batalha digitais. A reconstrução da confiança na ciência exige, paradoxalmente, que a tecnologia desaprenda seus piores vícios e reaprenda a valorizar o que é factual, mesmo que isso seja menos “vendável” a curto prazo.
Esse debate faz parte de uma discussão maior sobre o papel da tecnologia na sociedade. No TI Especialistas, temas como inteligência artificial, segurança da informação, governança, carreira e transformação digital precisam ser tratados com menos fetiche tecnológico e mais responsabilidade. Porque tecnologia sem critério vira só uma máquina muito cara de amplificar besteira.
Bibliografia de Referência
- WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein.
Information Disorder: Toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Council of Europe Report, 2017. - ZUBOFF, Shoshana.
A Era do Capitalismo de Vigilância: A Luta por um Futuro Humano na Nova Fronteira do Poder. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021. - RECUERO, Raquel.
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Programa de Enfrentamento à Desinformação. - NOBRE, Sergio.
Plataformas Digitais e Democracia: Desafios e Caminhos. São Paulo: Instituto de Estudos Avançados da USP, 2023.