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Tecnologia e desenvolvimento mental

publicado por José Luis Braga

Essa semana, ouvi num canal de TV uma entrevista rápida, daquelas de telejornal, com uma psicóloga falando sobre os prováveis efeitos negativos do uso excessivo da tecnologia no desenvolvimento mental das crianças e jovens. E ela foi enfática ao afirmar que o prejuizo vai ocorrer sim, e que o uso da tecnologia deve ser muito bem fiscalizado e dosado pelos pais, para não prejudicar o desenvolvimento das crianças.

imagesAí me lembrei de uma discussão similar de que participei há uns 30 anos, sobre os usos da máquina de calcular de bolso pelos alunos nos mais diversos níveis de ensino. Várias reuniões com pedagogos aqui na UFV, todos também enfaticamente contra o uso das inofensivas calculadoras pelos alunos, os argumentos muito parecidos: vai prejudicar o desenvolvimento mental, vai dar preguiça de pensar, os alunos não vão aprender a resolver problemas e nem a pensar adequadamente. Era uma discussão meio sem base técnica e muito mais no sentimento e paixões de cada um, muito na base do  “eu acho”, pois não era possível fazer uma projeção correta da situação para o futuro, dado o enorme número de variáveis envolvidas num possível modelo, maioria delas sociais e da psicologia experimental. E nem havia dados disponíveis que apontassem seguramente em alguma direção futura.

Trinta anos depois, nada das catástrofes previstas aconteceu. O mundo continua andando para a frente (ou para trás dependendo do ponto de vista), a geração calculadora está ai sem prejuizo aparente nenhum, todo mundo sobreviveu, hoje a calculadora de bolso é coisa do passado, usada cada vez menos como um dispositivo separado, integrada que é nos celulares e smartphones. Elas evoluiram para máquinas poderosas e especializadas, melhores que qualquer computador da minha época de jovem, com destinação específica para uso em administração, em engenharia, etc., e são indispensáveis aos engenheiros, administradores, economistas  e técnicos.  As fórmulas e principais planilhas de decisão já vêm embutidas, utilizáveis via uma única tecla.

E a discussão não terminou, vão passando de tecnologia para tecnologia, a turma dos tecnófobos cada vez pior, idem a turma dos tecnófilos, cada vez mais fissurada em avanços tecnológicos. O fato inegável é que é impossível hoje barrar o uso da tecnologia pelos jovens, ela está ai nas ruas e nas mãos de todos. Se não tiver acesso em casa, o jovem acessa em lanhouse, ou na casa de amigo, ou na escola. Os smartphones são hoje a ponta da famosa convergência tecnológica, são usados para tudo, e são muito práticos. Telefone fixo? as novas gerações já nem sabem muito bem o que é isso, como também não sabem o que é um LP, uma fita cassete, uma fita de video VHS e nem mesmo o que é uma locadora de vídeo.

O mundo mudou, e mudou demais. As redes sociais fazem parte do mundo, têm força de mobilização para derrubar governos e provocar movimentos pelo mundo afora, como o recente “occupy Wall Street” que se espalhou rapidamente. O virtual está tomando o lugar do físico, levando vantagens porque os deslocamentos ficaram mais dificeis, mais caros, mais perigosos. Infelizmente, o que não evoluiu na mesma velocidade da tecnologia, foram as técnicas de ensino. Ainda vamos para a sala de aula usar quadro e giz, algumas transparências velhas, alguma coisa usando datashow, mas o método de ensino mesmo, a sincronia exigida pela sala de aula, isso não mudou, e os jovens não se adaptam mais a horários rígidos e não se sentem motivados. Nós, professores, estamos fora do tempo e tomando surra da tecnologia. Tenho uma postagem recente sobre esse assunto: Sincronismo, sala de aula e as novas gerações…, recomendo a leitura.

Sinceramente, não acho que as novas gerações foram prejudicadas por nada. Todo avanço tecnológico foi acompanhado de discussões similares, desde o surgimento do livro impresso, da passagem do cinema mudo para o cinema falado, o surgimento do transistor, enfim, basta dar uma olhada rápida na história da ciência e das revoluções científicas. O que falta é a gente aprender a usar as tecnologias a nosso favor e a favor dos jovens.

 

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Publicado originalmente no Blog do Professor José Luis Braga.

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Autor

José Luis Braga é Professor Titular do Departamento de Informática na Universidade Federal de Viçosa Formação Acadêmica Pós-Doutoramento - University of Florida - USA, 1999 Doutor em Informática - PUC/Rio - Setembro de 1990 Mestre em Ciência da Computação - DCC/UFMG - Novembro de 1981 Engenheiro Eletricista - PUC/MG - Agosto de 1976 Site: zeluisbraga.wordpress.com

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